Ela faz cinema

Fade in.

A primeira vez que ela o viu foi pelo view finder. A inglesa e rara Bell-Howell Super8 encontrada em um bazar despertou seu sonho antigo. Sempre quis ser cineasta. Agora, com a câmera nas mãos fazia seu primeiro filme. Ele era o protagonista.

Depois de muito mexer na câmera para tentar fazê-la funcionar, ela desistiu. Definitivamente não era cineasta mas a beleza da peça a contagiou. Não resistiu. Empunhou a câmera, repousou delicadamente seu olho no pequeno orifício e como num susto acabou fazendo uma panorâmica. Apesar de rápido, o movimento foi suficiente para que ela analisasse todas as quinquilharias expostas ali. Muitas pareciam ter sido retiradas de sua memória, da infância que parecia tão distante quanto o seu sonho em fazer um filme.

Ao final do movimento, ele. Tilt. Estava vestido de calça jeans, uma camiseta branca e um tênis despojado. Bastava. Achou bonito de costas. Gostou mais quando ele virou lentamente e mostrou seu rosto. Ela descobriu o zoom.

Ficou surpresa com aquela figura naquele lugar tão abandonado quanto a sua vida nos últimos tempos. Procurou tanto aquele physique du role e agora nem havia precisado fazer casting. Ele simplesmente circulava olhando atentamente cada um dos objetos expostos. Brincava focando e desfocando. Ele, o objeto. O objeto, ele. Ele pegou um ferrorama antigo. Acariciou a caixa.  Certamente também se lembrava de sua infância.

Quando já estava completamente encantada com o jeito que ele olhava para o trenzinho, sentiu sua mão escorregar e bater em um gatilho. A câmera disparou fazendo aquele barulho inconfundível de cinema. Seu coração disparou quick motion. Flash Foward.

Transportou seu pensamento para onde gostaria que fosse o clímax daquele filme. Pensou nele. Em seu apartamento. Lusco fusco. Seus olhares cruzando em slow motion. Sua boca em close up. A boca dele em close up. As duas bocas em close up. Precisava de BG? Desnecessário. O ruído da câmera girando o carretel embalaria o filme mudo dando a dramaticidade necessária para um momento como aquele.

Corte. Voltou em pensamento para o bazar. Perdeu a continuidade. Ele já estava dobrando a esquina. Um halo deixava o andar dele ainda mais bonito, mais poético. Long Shot. Ele, a rua, a tarde, a cidade. Seu filme.

Fade out.

Bell Gama, janeiro, 2010.

4 comments 24/01/2010

Beatriz e Henrique: Ponto final.

Ponto Final.

Vou Chutar o pau da barraca

Vou Rodar a baiana

Vou Chutar o balde

Vou Subir nas tamancas

Vou Mandar pros quintos do inferno

Vou Mandar pra puta que pariu

Vou Mandar ver se estou na esquina!

E Beatriz mandou tudo para o inferno!

Quem assume a história sou eu.

Aliás, confesso, a história é, com todas as letras, m-i-n-h-a!

Não se sinta enganado pela minha confissão.

Toda mulher quando termina um relacionamento qualquer

Sente-se personagem de si mesma.

Isso mesmo, quando uma história está acabada,

Parece que quem a viveu foi outra.

E eu, cansei de ser Beatriz.

Seu jeitinho de “vou conquistar o mundo” já me irritava….

Suas depressões-sem-motivo já me irritavam…

Henrique então, nem se fala!

E assumo de uma vez por todas, o papel de protagonista, autora e diretora da história.

Papel digno de todas as mulheres nas grandes histórias de amor.

Mas, se você está esperando um “grand finale” para o relacionamento dos dois. Desista!

O motivo é simples, aquele que termina com todos os relacionamentos: a palavra.

O relacionamento não acaba por uma grande ação

Nem por um grande motivo,

Termina somente por causa da palavra…

Pela ausência ou excesso dela.

No caso de Henrique, é claro que foi pela ausência.

Se você se lembra bem do começo dessa história,

Beatriz e Henrique não eram amigos, nem namorados, nem amantes,

Mas, tudo começou por uma amizade que conseguiu apaixonar os dois.

Eles viraram amantes,

Esqueceram-se de ser amigos.

E se o medo dos dois era que o excesso de paixão sufocasse o relacionamento.

O relacionamento acabou sendo sufocado pela falta de amizade.

É assim que terminam muitos relacionamentos hoje.

Com poucos porquês,

Com algumas palavras,

E um simples, único e preciso

PONTO FINAL.

Mas, se você quer saber de Henrique, da reação dele a tudo isso…

Um aliviado “ufa!” e um covarde silêncio marcam suas últimas falas.

Pouco importa!, o amor começa e acaba todos os dias.

As mesmas palavras que acabam um amor, começam outro.

E assim segue a vida, cheia de personagens, vírgulas, parágrafos, travessões e alguns Pontos Finais.

(Bell Gama 2002)

1 comment 22/01/2010

Beatriz e Henrique: Mudança

Mudança

O recomeço deu-se naturalmente.

O difícil é determinar quando tudo mudou.

Talvez, nas férias.

Henrique foi para Florianópolis.

Beatriz para o Guarujá.

E as mudanças começaram ali mesmo, antes de partir.

Dias antes foi a formatura de Beatriz.

Henrique compareceu com toda pompa e estilo.

Ele era o único que não poderia faltar.

Dançaram três valsas seguidas.

Ele era o namorado, ele era o padrinho

E a terceira, resolveram continuar dançando só porque estava divertido

Eles também eram amigos

Dias depois, ainda no Guarujá, Beatriz resolveu mudar de vida

Ficar sozinha, fazer exercício, comer rúcula

Nos mesmos dias, em SP, Henrique continuou trabalhando

Continuou sozinho, só que ligando para Beatriz

Na noite de reveillon, estavam separados

Juntos em pensamento

Beatriz apostou todas as fichas que tinha,

Juntou todos os cacos do seu coração,

e foi ao mar, depositar sua esperança,

jogar ao destino o amor de Henrique

Quanto ao reveillon do Henrique não se sabe,

Ele dormiu na praça, bêbado, sem muita cerimônia

A única coisa que se sabe é que naquela noite ambos deixaram-se recados no celular…

Beatriz com a voz embargada disse o quanto o amava

Henrique com a voz embriagada disse o quanto a amava

Dias depois se encontraram e já era ano novo

Era só para despedir

Henrique que não gostava de despedidas, despediu-se três vezes

Algo estava estranho

Beatriz queria ter chorado, mas não fez,

Algo estava estranho

E foi mais uma semana separados

Beatriz mais uma vez resolveu mudar de vida,

Entrou na academia,

fez até uma balada que chegou as 9 em casa.

Henrique, estranhamente mudou

Ligou para Beatriz diversas vezes,

só secretária eletrônica

Henrique, estranhamente não ficou com ninguém

Beatriz, na balada, ficou

Eu tentei de tudo,

Fiz o cenário,

Escolhi a música,

Só faltou você…ele não era meu personagem principal

Foi assim que Beatriz descreveu a Henrique sua aventura nos braços de outro

Ele com o olho embargado, desta vez, possivelmente por alguma falsa conjuntivite

Sentiu-se a vontade para confessar

Eu não tentei nada,

O cenário estava lá,

As nossas músicas também,

Só faltou você

Os dois se olharam estranhamente

Ficaram mudos por muito tempo

Beatriz, pela primeira vez, ficou sem ter o que dizer

Henrique, pela primeira vez, ficou tentando falar

Na cabeça de Beatriz passou um filme,

o filme que mais a emociona nos últimos tempos:

O dos dois

Henrique diz que o filme começou com a pequena xícara deixada por ela em sua porta

Henrique diz que o romance começou com o velho golpe da tequila

Mas, quem beijou foi você!

Eu não fiz nada, eu nem queria nada, só bebi tequila

Aí você vem, com esse seu jeito, me deixou apaixonada e depois não me quis

E agora? Acho que sou eu quem decido!

To cansada! Se você não tem a capacidade de me amar,

Não merece meu amor.

Beatriz inventou os personagens,

ela tinha o poder de defini-los

Mas, no fundo, Henrique é quem ditava as regras da história.

Beatriz, só escrevia

Beatriz lembrou-se da viagem que fizeram juntos

Beatriz escolheu Minas Gerais, seu lugar

Henrique nem hesitou, foi com ela

Foram quase cem horas ininterruptas juntos

Não se separaram nem um só segundo

E foi neste lugar que aconteceu uma das cenas preferidas de Beatriz

E foi neste lugar que aconteceu uma das cenas preferidas de Henrique

Naquela hora, pela primeira vez na minha vida, eu não queria estar em lugar nenhum

Só ali com você, nunca senti tanta serenidade

Só durmo tranqüilo quando você está ao meu lado,

Me abraçando.

As coisas tinham mudado

Definitivamente.

Henrique, no começo, nem gostava de dormir

Dormia acelerado, se mexia, fazia barulhos

Beatriz, no começo, adorava dormir

Agora, ficava acordada uma noite inteira, só para ver Henrique dormir

Henrique, no começo, detestava o jeito desastrado e louquinho de Beatriz

Beatriz, agora tinha que pedir serenamente para Henrique falar sério e parar de fazer drama

Henrique já ouvia Chico

Beatriz gostava do “Cio da Terra”

Os dois já tinham se misturado

Os dois estavam completamente misturados

Beatriz, empolgada com o tinha vivido, até comentou

Queira que você tivesse visto as cenas maravilhosas que vi durante os momentos que ficamos juntos em Minas

Naquele dia, Henrique beijou os pés de Beatriz

Nenhum homem tinha feito isso, ela nunca havia deixado

Mas, Henrique com aquele jeito que é dono de tudo beijou sem nenhuma cerimônia

Eu vi, só que por outro ângulo, dos meus olhos

Este era o medo de Beatriz

Qual ângulo Henrique estava vendo as coisas?

É nesta hora que deu a vontade súbita de ela escrever a história

Ela queria ser a diretora das cenas

Ela queria definir os personagens

Mas, não tinha coragem, escreveu um e-mail para Henrique

Estou escrevendo nossa história, alguma sugestão?

Em menos de dois minutos Henrique respondeu

Escreva o que quiser, você é a escritora do momento

Agora Beatriz está com medo

Não tem coragem de fazer a história sozinha

Está com medo de (as)sumir

Bell Gama, 2002

Add comment 20/01/2010

Beatriz e Henrique: O re-começo

O Re-começo

“Não posso deixar tudo acabar assim, te adoro”.

Foi esta a mensagem que Beatriz recebeu de Henrique pelo celular.

Ele finalmente havia escrito alguma coisa.

Tudo bem que não era com caneta e papel…

Era pelo celular, mas Beatriz guardou a mensagem com todo o cuidado do mundo.

A escritura de Henrique era uma raridade.

Mais que isso, provava a vontade dele de continuar.

“Não te entendo…Mas, obrigada pela mensagem”

Foi esta a mensagem que Beatriz mandou para Henrique pelo celular.

Pelo menos é o que ela se lembra…ela não conseguiu guardar a mensagem…

Beatriz nunca foi boa em lidar com as tecnologias e acabou apagando a mensagem enviada.

Mas, não se importou muito…ela não fez muita questão de guardar.

Mas ela espera ter dito isso.

Beatriz não se conteve, logo ligou para Henrique

Desta vez, esperou que ele falasse ao invés de escrever

Henrique não falou muito

Beatriz perguntou muito

As coisas já não eram mais as mesmas.

Antes, Henrique era assim.

Antes, Beatriz era assado.

Agora, se misturaram.

Os dois sabem agora o quão difícil ser um só.

No começo, Henrique achava que o final seria Beatriz na Califórnia.

No começo, Beatriz achava que o final seria Henrique em qualquer outro lugar.

Começaram a perceber que o fim dos dois seria no mesmo lugar.

Mas separados.

Se olhando todos os dias mas fingindo não notar

Sabendo sempre o telefone de cor mas sem poder ligar

Diante desta situação,

Henrique pediu para refazer o fim da história

Beatriz não sabe nem por onde começar

Resolveram deixar de pensar no recomeço

E finalmente, recomeçar.

Por Bell Gama (2002)

Add comment 18/01/2010

Beatriz e Henrique: Meio-fim

Meio – Fim

Beatriz arrumou emprego fixo.

Henrique gostaria de ser despedido.

Beatriz aprendeu a achar o interruptor sozinha.

Henrique agora sente que tem uma casa.

Beatriz passou a usar relógio de ponteiro.

Henrique comprou uma jaqueta de náilon.

Os dois estavam se misturando.

Se juntando.

Se ajeitando.

Quando…

Eu não perderia escrever esse momento por nada.

Se não escrevesse agora, com lágrimas nos olhos e muita dor no coração,

Minhas palavras não teriam sentimento.

Se não fossem escritas, não seriam eternizadas.

O mundo ainda  não pertence a Beatriz.

Mas, ela já não mais se sente tão parte do nada.

Beatriz não achava que o fim de sua vida com Henrique estava tão perto.

Eu nunca escreveria agora o fim.

Pensaria e muito quais palavras iria escrever.

Isto é, se escrevesse, pois nunca escreveria algo tão importante.

Ele simplesmente um dia contaria o fim.

Pois, as palavras ditas ficariam soltas, para serem esquecidas.

Já as escritas, ficariam salvas, guardadas para sempre.

Nada para Henrique é para sempre.

Ele não é daqui, nem de ninguém, nem de lugar algum.

Henrique já previa que o fim logo chegaria.

Agora, são dois longos andares que separam os dois.

Vinte e tantos degraus ou dez distantes segundos de elevador.

Quando seus olhares se cruzam, não vêem mais as mesmas coisas.

O diálogo passou a ser atropelado, interrompido a todo momento pelo outro.

Os corações já não tem o mesmo compasso.

Não batem mais ao mesmo tempo nem têm mais o mesmo tom.

Beatriz ainda esperou.

Antes de decidir ir embora, olhou inúmeras vezes para o corredor.

Deu vagarosos passos como se esperasse que ele fosse aparecer a qualquer momento.

Henrique não apareceu.

Não conseguiu nem levantar do lugar onde conversaram para se despedir.

A hipótese de ir atrás de Beatriz nem passou por sua cabeça.

Os atos de Henrique são pensados.

Os atos de Beatriz são sentidos.

Tudo terminou pois eles não eram mais amigos, nem amantes.

Não eram apenas pessoas que se amavam por suas diferenças.

O pecado foi tentar descobrir quem eram.

Como todo ser humano,  pensaram muito em o que deveriam ser.

E deixaram simplesmente de ser.

Bell Gama (2002)

1 comment 14/01/2010

Beatriz e Henrique: Começo e meio

Começo e meio

Não acho mais o interruptor de luz no escuro.

Não acerto a primeira chave que escolho no meu chaveiro na porta.

Não sei o nome do cachorro do vizinho.

Os barulhos da casa não me são mais conhecidos.

Meu cachorro não abana o rabo quando entro.

Minha cama agora me dá dor nas costas.

As roupas já não cheiram mais o mesmo amaciante.

Não tenho coragem de desarrumar a minha mala.

A água da piscina não tem mais a mesma temperatura.

O meu travesseiro não abraça mais minha cabeça.

É assim que se sente Beatriz.

Olha o mundo como se não fosse dela.

Como se não fosse daquele lugar.

Como se não fosse de lugar algum.

Tira foto de todos os lugares que passa.

Ao revelar, vê que nenhum deles é dela. É só mais um sol, é só mais uma paisagem.

As músicas que acompanharam sua vida, já não acompanham mais.

Procuro todos os interruptores.

Acendo todas as luzes em um só toque certeiro.

Quando não acendo, vivo no escuro.

Ando por qualquer lugar sem tropeçar em um só objeto.

Nunca tive bicho de estimação.

Sinto como se todos me estimassem.

Nunca me perdi.

Meu pé sabe cada passo que dá.

Não faço cópia de chave alguma.

Nunca fiz questão de ter uma só gaveta para guardar minhas roupas.

É assim que se sente Henrique.

Olha o mundo como se fosse inteiro dele.

Como se fosse de todos os lugares.

Nunca teve casa.

A casa dele é onde está.

Todos os lugares são dele.

Nunca teve uma só máquina fotográfica.

Se contenta em ver as fotos tiradas por outros.

Não guarda lembranças de onde passa.

Beatriz escreve com letra de mão.

Henrique sempre usou computador.

Beatriz sonha com uma casa com jardim.

Henrique sonha com um passaporte cheio de vistos.

Beatriz quer ter onze filhos.

Henrique só quer se casar depois dos quarenta.

Mas, Beatriz é free lancer.

Henrique sempre teve emprego fixo.

Beatriz usa as roupas de acordo com seu humor.

Henrique só veste terno.

Beatriz fuma Marlboro.

Henrique adora salmão grelhado com salada.

Beatriz toma calmantes.

Henrique tem gastrite.

Beatriz tem um guru.

Henrique lê a Bíblia.

São somente dois andares que separam os dois.

Dois andares de escada ou dez segundos de elevador.

Mas, por muitas vezes quando se olham, seus olhares parecem ver as mesmas coisas.

Seus silêncios são cronometrados.

Os corações por muitas vezes batem no mesmo tempo, com o mesmo tom.

As frases já tem as mesmas pausas.

Se conhecem há pouco.

E já sabem muito um do outro.

Ás vezes até demais.

As diferenças quase sempre aparecem.

Mas nenhum dos dois se importa.

Beatriz sabe, um dia, sem programar, sem avisar, sem dar tchau, Henrique se vai.

Henrique não sabe se é Austrália, se é Amazônia, mas sabe que vai.

Mas, Henrique sabe, um dia, programado, com festa de despedida, Beatriz se vai.

Beatriz também não sabe para onde vai, se é Califórnia ou se é para a casa dos pais.

Beatriz torce para ir antes.

Henrique não se importa em ir depois.

Beatriz espera que Henrique sinta sua falta.

Henrique espera que Beatriz não sinta sua falta.

Os dois não são namorados, nem amigos.

São duas pessoas que se amam pelas suas diferenças.

Muitas vezes Beatriz sonha em ser Henrique.

No fundo, Henrique tenta ser um pouco mais Beatriz.

A única certeza que os dois têm é que seriam muito melhores se fossem um só.

(Bell Gama/ 2002)

Add comment 12/01/2010

Para quem ainda acha que a TV não presta

Não costumo postar outras coisas aqui além dos meus textos, mas ultimamente assisti três vídeos/filmes/documentários que me marcaram muito. Além disso tenho outro motivo para falar deles. Os três foram exibidos na televisão aberta. Quem me conhece sabe que desde a faculdade eu bato na tecla que a TV pode ter conteúdo bom. Tanto que meu trabalho de pós graduação tem como título: “Para quem acha que a TV não presta” com análise do trabalho do Marcelo Tas (quero deixar claro que isso foi muito antes do CQC, tanto que fui uma das últimas a entrevistá-lo já que depois do CQC ele ficou mais “ocupado”).  Mas isso é outra história. O que quero mostrar aqui é que é possível exibir conteúdo de qualidade na TV aberta.

Tanta qualidade que chego a ficar com água na boca dos trabalhos exibidos.

“O amor segundo Schianberg” – Beto Brant

Já comentei sobre esse projeto feito pelo Beto Brant (maravilhoso diretor de “O invasor”) no post dos livros grifados em janeiro de 2010. (Leia)

O filme está disponível em três capítulos no  youtube. (Assista)

Merece ser visto pela maravilhosa idéia, pelo trabalho dos atores, pela ligação com a literatura, pela ausência de roteiro e até mesmo pela inovadora exibição na TV Cultura, em três capítulos, antes dos cinemas.

“Ponto de Virada – o dia que mudou sua vida”, Frank Mora.

Nada como uma idéia simples e genial. Nunca tinha ouvido falar do diretor Frank Mora mas o google me disse que ele já participou da Mostra de Cinema em São Paulo. Assisti o documentário “Ponto de Virada” por conta de um zapping que dei na TV durante a madrugada e acabei parando no Canal Futura. É uma série de 13 entrevistas com diversas personalidades que respondem a simples pergunta: Qual foi o seu ponto de virada? Por incrível que pareça, as respostas são as mais diversas possíveis. Nada clichê. Com direção simples, câmera parada e edição mais simples ainda, o documentário vale pelos depoimentos.

“69 Praça da luz”, Carolina Markowics, Joana Galvão

Mostrando que um grande tema está do nosso lado, basta ter um olhar com vontade de se inspirar, Carolina e Joana entrevistaram prostitutas de idade avançada que têm como ponto a Praça da Luz. Diferente de tudo que se imagina quando se pensa em prostituição, as senhoras, que trabalham durante o dia, contam suas experiências sexuais (de maneira honestíssima) e suas dificuldades. Simplesmente maravilhoso. Foi exibido pelo Canal Futura mas já está no Portal Curtas.  (Assista)

Add comment 08/01/2010

Ausência.

Escrevo para pedir desculpas pela minha ausência.

Juro, não foi minha culpa.

Achava que a nossa distância era necessária.

Não queria me aprofundar em coisas que não fariam bem para nós.

Não posso dizer que não vivemos bons momentos juntos. Vivemos muitos. Fugazes, porém muitos. Nos divertíamos bastante e por um tempo, isso era o que bastava. Lembro especialmente das viagens. Embora procurássemos ao máximo conhecer novas coisas, também passávamos alguns pequeninos segundos inesquecíveis juntos. Engraçado pensar nisso agora… Sei que eles existiram mas ficaram tão distantes que ás vezes tenho dificuldade de reconstruí-los com exatidão.

O que estou tentando atrapalhadamente dizer é que não foi uma ausência completa. Tentei por algumas vezes estar presente e não fugir de você. Mas me sentia cansada. Juro que estava. Não sinta-se culpada por isso. Você nunca fez nada que eu não quisesse. Mas parece que tudo que estivesse ligado a você me soava como um trabalho daqueles bem burocráticos, dos mais difíceis. Diante de uma tarefa que a gente não quer cumprir, o melhor mesmo é procurar distração. E nisso, você sabe, sou especialista.

Ingenuidade. Impossível fugir tanto tempo de você. No fundo eu sabia que um dia teríamos que nos ver. Por um tempo fiquei com muito medo deste encontro. Não sabia muito o que dizer, como explicar e se seria perdoada por tudo que fiz. Racionalizei como seria, tentei te agradar, contar com a ajuda de outras pessoas, mas foi em vão.

Nossa conversa teria que ser as claras, no tete a tete, sem disfarces, sem ajuda, sem piadas, sem amigos, sem cachaça. Na insônia. Ressaca pura.

Você, página em branco.

Eu, pronta pra escrever.

Bell Gama

Janeiro/2010

1 comment 04/01/2010

Hoje o samba saiu procurando você

A morte muitas vezes tem a capacidade de aproximar as pessoas. Hoje recebi a notícia de que alguém que não conheci morreu. Na verdade, eu o conheci pela boca de meu pai (que também fez um texto sobre ele em seu blog). Bentinho, um sambista em tempo integral que era lavador de carros em horário comercial, faleceu.

Apesar de ver o carro do meu pai sempre tinindo de limpinho, nunca lavei meu carro com Bentinho. Meu pai gostava tanto dele que lavava até quando o carro estava limpo e fazia questão de dar uma gorjeta bem gorda, só para mante-lo por perto. Bom contador de causos, ouvi histórias maravilhosas de meu pai sobre Bentinho, inclusive que ele o havia convidado para ser padrinho da escola de samba. Foi a homenagem que mais me deu orgulho de ser filha do meu pai.

O samba de Bentinho nos uniu. Muitas vezes ficamos por horas conversando sobre os instrumentos tocados por ele, as músicas que ele gostaria de compor, os botecos de samba paulistano que eu queria levá-lo e muitas vezes planejamos juntos em fazer um churrasco na comunidade de Bentinho para que pudéssemos passar o dia a cerveja, sol e batucada. Infelizmente, o encontro ficou só no sonho.

O Bentinho do meu coração é um negão alegre, meio Mussum, meio Cartola. Com gingado de corpo, que lustra o carro como se fosse porta estandarte. Conversa de tudo, gosta de torresmo e cachaça, canta em alto e bom som com uma voz grossa e as vezes deixa um bigodinho para fazer charme para a mulherada.

Nunca vi Bentinho. Mas já tenho saudades do seu samba.

Por Bell Gama

dezembro/2009

3 comments 03/12/2009

Minhas noivas e a madrinha

Eles se encontraram, ficaram amigos, namoraram, casaram e foram felizes para sempre. Essa sucessão de acontecimentos que hoje parecem frase velha de história de princesa realmente acontece. Comigo ainda não aconteceu. Digo ainda com a maior das esperanças porque nunca entrei numa igreja sozinha. Nunca assisti um casamento da platéia.

Nem todas as noivas eram minhas melhores amigas. Muitas, se tornaram a partir deste dia especial como é o caso da Paty, esposa do Rodrigo. Ele sim era meu amigo do trabalho e minha amizade com ela era superficial. Ainda dei um super trabalho no casamento deles porque terminei o namoro com o padrinho e tivemos que escolher um novo. Minha amizade com a Paty se fortaleceu no momento em que fomos ao cabelereiro juntas para que eu pudesse fazer umas fotos para o meu futuro presente. De amiga distante passei a melhor amiga de infância quando me vi sentada ao lado dela no banho de banheira no dia de noiva. Posso afirmar: não há nada mais bonito. Entre escovas, bobs, unha, laquê e nervosismo fomos nos tornando íntimas. Tive o prazer de ir no Chevrolet 47 com ela até a igreja. Compartilhei os últimos momentos dela antes de entrar no altar junto ao seu pai. Quando ela entrou, foi impossível não me sentir parte dela naquele lindo vestido que eu ajudei abotoar botãozinho por botãozinho.

No mesmo ano, minha outra amiga também do trabalho, resolveu se casar. Cerimônia simples, no cartório, apenas para familiares. Discreta, Priscila não queria alarde já que namorava o Jonas há muitos anos. Era sabido que um dia eles casariam. No cartório, não há madrinha. Mas mais uma vez eu estava lá, como testemunha, com a minha máquina fotográfica em punho e muito honrada de ser a única amiga dela convidada. Ao vê-los emocionadíssimos assinando a papelada, conversar com as avós deles, abraçar os irmãos, me senti mais uma vez, parte daquela família e me casei com eles.

Depois de muito tempo fui surpreendida por um convite inesperado. Meu amigo de infância, que conheço há mais de vinte anos, se casaria com uma “quase” amiga minha. Eu já conhecia a Carolina pois ela namorava o Thiago há muito tempo, mas mesmo com nossa proximidade não achava que seria convidada sequer para o casamento, ainda mais como madrinha! Fui escolhida junto com outro amigo de infância por representar a nossa turma da época de colégio. Para mim, foi um prêmio dado pelo generoso casal. Eu, que sempre quis ser inesquecível para aquela turma, naquele momento me eternizava como madrinha deles.

Foi com esse mesmo padrinho que acabei entrando pela quarta vez na igreja. Vinícius, meu amigo de infância, e eu fomos escolhidos por Flávia e Fabrício. A Flávia eu já conhecia desde os meus quatro anos de idade. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que foi minha primeira melhor amiga. A vida nos afastou e nos uniu no momento certo: de apresentar o Fabrício a ela. Na época eu também namorava e falávamos até em nos casar juntos já que os namoros começaram no mesmo dia. O meu terminou. O amor de Flávia e Fabrício não.

Quando achei que já estava experiente o suficiente, recebi mais um convite. Dessa vez, minha irmã se casaria. E mais, como madrinha, teria que fazer um discurso durante o casamento. Se eu já me emocionava com cada noiva entrando no altar, ver a minha irmã feliz, casando-se com o homem que ela escolheu e que eu tenho a certeza que será feliz, foi algo inesquecível. Ensaiei muito o discurso. Fiz terapia. Conversei com o casal, com o outro padrinho, mas não adiantou. Chorei muito. Na verdade, fiquei aos prantos. Tanto que fiquei horrível nas fotos.

Nesse momento em que escrevo tudo isso, para que eu não perca nunca de minha lembrança os casamentos que vivi, acabo de rever as fotos do último. Renata e Cauê fizeram uma festa linda. Generosamente Renata me chamou para participar de tudo. Do chá de cozinha até ser a última convidada a sair da festa. Minha história com eles sempre foi assim. Eles praticamente namoraram na minha casa. Torci muito pelo namoro dos dois e bastou que eu os visse juntos uma vez para saber que ficariam para sempre. Vivi momentos deliciosos no cabelereiro com as sobrinhas da Renata, troquei as daminhas, abracei os familiares e quando você acha que já sentiu tudo, sempre há uma coisa nova. Fui convidada por eles a ir no mesmo carro da igreja para a festa. Encontrar alguém um segundo depois do maior momento da sua vida não tem como explicar. Foi uma explosão de alegria, risadas, beijos e comentários atropelados no caminho. Dava vontade de ficar ali para sempre. Chegamos na festa e ainda fui a responsável por tirar o véu da noiva. Chorei durante o filme, bebi com os padrinhos e dancei até o chão. A alegria foi tamanha que no fim da festa nem esperava o elogio do padrinho: “Renata e Cauê se casaram, mas quem ganhou o presente fui eu.”

Serei a próxima?

Se depender da torcida e do meu nome escrito na barra do vestido de Patrícia, Priscila, Carolina, Flávia, Carol e Renata, certamente.

Bell Gama

Novembro 2009

4 comments 18/11/2009

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