Minhas noivas e a madrinha

Eles se encontraram, ficaram amigos, namoraram, casaram e foram felizes para sempre. Essa sucessão de acontecimentos que hoje parecem frase velha de história de princesa realmente acontece. Comigo ainda não aconteceu. Digo ainda com a maior das esperanças porque nunca entrei numa igreja sozinha. Nunca assisti um casamento da platéia.

Nem todas as noivas eram minhas melhores amigas. Muitas, se tornaram a partir deste dia especial como é o caso da Paty, esposa do Rodrigo. Ele sim era meu amigo do trabalho e minha amizade com ela era superficial. Ainda dei um super trabalho no casamento deles porque terminei o namoro com o padrinho e tivemos que escolher um novo. Minha amizade com a Paty se fortaleceu no momento em que fomos ao cabelereiro juntas para que eu pudesse fazer umas fotos para o meu futuro presente. De amiga distante passei a melhor amiga de infância quando me vi sentada ao lado dela no banho de banheira no dia de noiva. Posso afirmar: não há nada mais bonito. Entre escovas, bobs, unha, laquê e nervosismo fomos nos tornando íntimas. Tive o prazer de ir no Chevrolet 47 com ela até a igreja. Compartilhei os últimos momentos dela antes de entrar no altar junto ao seu pai. Quando ela entrou, foi impossível não me sentir parte dela naquele lindo vestido que eu ajudei abotoar botãozinho por botãozinho.

No mesmo ano, minha outra amiga também do trabalho, resolveu se casar. Cerimônia simples, no cartório, apenas para familiares. Discreta, Priscila não queria alarde já que namorava o Jonas há muitos anos. Era sabido que um dia eles casariam. No cartório, não há madrinha. Mas mais uma vez eu estava lá, como testemunha, com a minha máquina fotográfica em punho e muito honrada de ser a única amiga dela convidada. Ao vê-los emocionadíssimos assinando a papelada, conversar com as avós deles, abraçar os irmãos, me senti mais uma vez, parte daquela família e me casei com eles.

Depois de muito tempo fui surpreendida por um convite inesperado. Meu amigo de infância, que conheço há mais de vinte anos, se casaria com uma “quase” amiga minha. Eu já conhecia a Carolina pois ela namorava o Thiago há muito tempo, mas mesmo com nossa proximidade não achava que seria convidada sequer para o casamento, ainda mais como madrinha! Fui escolhida junto com outro amigo de infância por representar a nossa turma da época de colégio. Para mim, foi um prêmio dado pelo generoso casal. Eu, que sempre quis ser inesquecível para aquela turma, naquele momento me eternizava como madrinha deles.

Foi com esse mesmo padrinho que acabei entrando pela quarta vez na igreja. Vinícius, meu amigo de infância, e eu fomos escolhidos por Flávia e Fabrício. A Flávia eu já conhecia desde os meus quatro anos de idade. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que foi minha primeira melhor amiga. A vida nos afastou e nos uniu no momento certo: de apresentar o Fabrício a ela. Na época eu também namorava e falávamos até em nos casar juntos já que os namoros começaram no mesmo dia. O meu terminou. O amor de Flávia e Fabrício não.

Quando achei que já estava experiente o suficiente, recebi mais um convite. Dessa vez, minha irmã se casaria. E mais, como madrinha, teria que fazer um discurso durante o casamento. Se eu já me emocionava com cada noiva entrando no altar, ver a minha irmã feliz, casando-se com o homem que ela escolheu e que eu tenho a certeza que será feliz, foi algo inesquecível. Ensaiei muito o discurso. Fiz terapia. Conversei com o casal, com o outro padrinho, mas não adiantou. Chorei muito. Na verdade, fiquei aos prantos. Tanto que fiquei horrível nas fotos.

Nesse momento em que escrevo tudo isso, para que eu não perca nunca de minha lembrança os casamentos que vivi, acabo de rever as fotos do último. Renata e Cauê fizeram uma festa linda. Generosamente Renata me chamou para participar de tudo. Do chá de cozinha até ser a última convidada a sair da festa. Minha história com eles sempre foi assim. Eles praticamente namoraram na minha casa. Torci muito pelo namoro dos dois e bastou que eu os visse juntos uma vez para saber que ficariam para sempre. Vivi momentos deliciosos no cabelereiro com as sobrinhas da Renata, troquei as daminhas, abracei os familiares e quando você acha que já sentiu tudo, sempre há uma coisa nova. Fui convidada por eles a ir no mesmo carro da igreja para a festa. Encontrar alguém um segundo depois do maior momento da sua vida não tem como explicar. Foi uma explosão de alegria, risadas, beijos e comentários atropelados no caminho. Dava vontade de ficar ali para sempre. Chegamos na festa e ainda fui a responsável por tirar o véu da noiva. Chorei durante o filme, bebi com os padrinhos e dancei até o chão. A alegria foi tamanha que no fim da festa nem esperava o elogio do padrinho: “Renata e Cauê se casaram, mas quem ganhou o presente fui eu.”

Serei a próxima?

Se depender da torcida e do meu nome escrito na barra do vestido de Patrícia, Priscila, Carolina, Flávia, Carol e Renata, certamente.

Bell Gama

Novembro 2009

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Boca a boca

Prazer. Você é a Fulana? Estava te esperando. Não, não esperei muito tempo não. Na verdade acabei de chegar, mas já estava te esperando.

Fique tranqüila, não será tão difícil assim. Prometo ser gentil. Você quer que eu explique como tudo funciona? Que fale um pouco de mim ou vamos começar? Por que você está rindo? Muita formalidade? É que gosto de contar um pouco sobre mim antes. Mas se você não quiser podemos ir direto ao ponto.

Ah, você conhece o Sicrano? Poxa, já o conheço há uns bons anos. O que ele é seu? Amigo? Ah… tá. Estudaram juntos? Sei, sei. Nossa! Como você está quietinha! Costuma costuma ficar assim ou é só comigo? Isso, ria para ficar mais relaxada! Bem bonito o seu sorriso…

Ás vezes acho que deveria ter sido comediante. Mas não sou né? Se eu fosse, teríamos nos conhecido de maneira bem diferente. Bom, vou parar de te enrolar e vamos de uma vez. Prometo que não vai doer nadinha. Você que vai me dizer até onde quer ir.

Deita aqui, fica a vontade.

Abre a boca.

Abra essa boca bem grande para mim.

Isso, desse jeito.

Assim tá perfeito… lindo!

Bom Fulana, você está com uma cárie. Só uma. Vamos começar a obturação.

Por Bell Gama Novembro de 2009

3 comments 03/11/2009

Veredicto


Nullum crimen sine culpa

Suspeito dos amores que tive.

Como detetive de sua própria vida, Fulana acordou num sobressalto com essa pista. A prova cabal era que estava sozinha na cama, há dias, meses. Na verdade, nem se lembrava quem teria sido o último elemento a deitar-se ali.

Sentindo-se prisioneira de uma vida sem graça, foi ao banheiro, olhou-se no espelho e começou o interrogatório: onde estão eles? Eu os amei? Tentou remontar cronologicamente na sua cabeça onde havia estado nos últimos natais, réveillons e principalmente, carnavais. Era principalmente nessas épocas que eles apareciam.

Encontrou dificuldade. A memória nunca havia sido o seu forte. Abandonou o sigilo profissional e foi atrás de sua principal testemunha: a melhor amiga.

-        Sicrana, de todos os homens que tive, quem você lembra com mais nitidez?

Acostumada com telefonemas estranhos vindos daquele conhecido número que aparecia em sua bina, Sicrana respondeu:

-        Fulana, você não acha que é muito cedo para pensar em homem? São 7:15 da manhã… deixa eu dormir!

Ríspida como um veterano investigador, sem deixar brechas para desculpas, ela respondeu:

-        Foda-se a hora! Isso é importante. Vamos, me diga! Diga agora! Eu preciso saber. Não lembro. Só lembro do C.D e do R.M. Você lembra de mais algum?

-        Bom, esses foram os que você morou junto. Ou melhor, que fizeram usucapião de sua casa… mas teve também o …

-        Sem julgamento antecipado. Quero nomes, datas o que for! – Disse  Fulana acendendo um Marlboro vermelho.

-        Não sei. Acho que nesta lista também merecem figurar o C.S, o T.M e o V.C…

Impaciente, Fulana interrompeu:

-        Só esses? Você está certa que são só esses?

-        Sei lá, Fulana… São esses que eu me lembro a esta hora da manhã. Dá uma olhada nas suas fotos. Veja os que você tem mais fotos e os considere como pessoas importantes. Foto é importante.

-        Exato! Foto é uma prova. Tchau!

Fulana estava sendo profissional, não tinha tempo para sentimentalismos como “um beijo, te ligo depois”. Desligou e foi correndo para o seu armário, abriu o baú de lembranças. Inúmeras provas repousavam lá, a espera de uma análise criteriosa.

Foto por foto, Fulana foi analisando cada um que havia passado por sua vida. A amiga estava certa. C.D. e R.M. haviam marcado sua história. Com eles, ela havia ficado mais tempo. Mas isso não significava que tinha amado mais. C.D era um típico 171, traía e mentia que a amava. Já R.M. foi um assassino de sua auto estima. Demorou muito tempo para se recuperar de ambos criminosos. O que restava deles, era apenas as fotos e a ficha suja.

C.S, T.M e V.C tinham sido namorados temporários. Nem sabia se podia chamá-los de namorados. Era o tipo de relacionamento com liberdade de ir e vir. Tanta liberdade que um dia foram e não voltaram mais. Fugiram.

No passeio pela sua história encontrou outros, ainda mais insignificantes ou usurpadores de bons momentos de sua vida. Conforme ía processando as suas memórias amorosas, a detetive foi se derretendo em lágrimas. Com elas, o sentimento de vítima foi embora e deu-se o veredicto: nunca havia amado antes.

Por Bell Gama – outubro/2009

4 comments 20/10/2009

“De assalto” é selecionado para o 4o Curta Atibaia

C01_capal_1006_CORÉ com muita alegria que comunico aqui no blog a seleção do curta-metragem “De assalto” para o 4o Festival Curta Atibaia.

Apesar de vocês terem acompanhado toda a história, desde a crônica, passando pelos comentários e a estreia, confesso que jamais achei que iria postar uma notícia dessas aqui. Acho que todos aqueles que fizeram o filme  merecem a seleção para o festival. Foi um trabalho feito com imenso carinho por todos.

O filme “De assalto” foi inscrito no festival pelo querido produtor André Moraes, que não só participou intensamente do processo como continua me ajudando até hoje. A ele, toda a minha gratidão.

Quem estiver por Atibaia ou de bobeira por São Paulo neste fim de semana  e quiser conferir, o curta será exibido na Mostra Competitiva (competiremos com outros 25 filmes) na próxima sexta-feira (23.10) ás 20 horas no Centro de Convenções. O resultado sai no domingo (25.10) a noite. Quem quiser conferir toda a programação do Festival, acesse: http://www.atibaia.com.br/noticias/noticia.asp?numero=17487

Merda pra todos nós!

(PS: A imagem é o PDF de uma reportagem do jornal “A Cidade” de Ribeirão Preto, do dia 10 de junho, que falava sobre a linda estreia que fizemos no CineClube Cauim)

5 comments 20/10/2009

20mg

Comprava felicidade na farmácia em forma de comprimido.

“Não se preocupe, ela não vicia”

argumentava a médica.

“Você não precisa de remédio algum”

diziam seus colegas.

“Divide comigo a cartela?”

pedia a melhor amiga.

“Ih…Já tomou seu remédio hoje?”

questionava cotidianamente o seu namorado.

“Realmente você precisa disso?”

duvidavam os amigos.

“Apenas duas pílulas de fluoxetina bastam”

tentava se convencer incessantemente.

Não sentia se sentia o efeito.

Nem sabia mais porque tomava.

Fazia tanto tempo.

Na dúvida do tomanãotoma e quemeudevoouvir, decidiu parar.

Parou tudo.

Descobriu que nunca antes havia parado  um segundo sequer.

Passou a se perguntar sobre o preço das amostras grátis.

Por Bell Gama

outubro/2009

4 comments 14/10/2009

“Nos campos de Piratininga”

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Neste fim de semana, tive o prazer de ver mais uma vez o meu querido amigo/irmão/cumpadre, Murilo Inforsato estrear no teatro. Por isso, decidi escrever um post aqui para recomendar a todos a peça “Nos campos de Piratininga”, que está em cartaz no Teatro João Caetano (o serviço estará embaixo).

“Nos campos de Piratininga” tem a direção da conhecida Imara Reis. No elenco, os competentes os atores: André Persant, Décio Pinto, Gira de Oliveira, Graça Berman, Níveo Guedes, Valeria Simeão, Rodrigo Dorado, Sônia Andrade, o querido Eduardo Silva e o Murilo Inforsato.

Segundo o programa, trata-se de uma peça feita de saudade. Para mim, foi uma verdadeira aula da fundação e miscigenação de São Paulo e do futebol. A peça mostra a evolução da maior paixão nacional na cidade misturada com acontecimentos políticos e econômicos. Você aprende rindo, brincando e descobrindo a história do seu time.

Corinthiana roxa, saí orgulhosa da peça. Ás quintas-feiras, também haverá debates com personalidades do mundo do futebol. Quem for de camisa do time, tem desconto na entrada. Enfim, um programaço para quem gosta de teatro, de bola e de São Paulo.

Vai perder ?

Teatro João Caetano – Rua Borges Lagoa, 650, Vila Clementino – SP – Fone (11) 5549-1744

De 17 de setembro a 01 de novembro de 2009

Quintas 20h30 / sextas 21h / sábados 21h / domingos 20h00

Ingressos: 20,00 (inteira) / 10,00 (meia-entrada) / 8,00 (para quem estiver vestindo camiseta de qualquer time) / A bilheteria abre duas horas antes de cada sessão.

Duração – 120 minutos (dividida em dois atos)

Classificação indicativa – livre

Acesso e banheiro adaptado para pessoas com necessidades especiais / Aceita só dinheiro

Estacionamento conveniado – 5,00 (Allpark – Hospital São Paulo – Rua Napoleão de Barros, 715)

Toda quinta-feira, após a sessão, bate-papo com jornalistas, técnicos e jogadores convidados

Ficha Técnica

Texto – Renata Pallottini e Graça Berman

Direção Geral – Imara Reis

Diretor Assistente – Augusto Marin

Produção –  Graça Berman ,Wilma de Souza , Décio Pinto e Paulo Del Castro .

Elenco: Eduardo Silva, Graça Berman, Wilma de Souza, Décio Pinto, André Persant, Gira de Oliveira, Murilo Inforsato, Nívio Diegues, Rodrigo Dorado, Sônia Andrade e Valéria Simeão

Administração – Fátima Collétti

Criação e Direção Musical – Paulo Herculano

Criação Musical – Matias Capovilla

Preparação e Arranjos Vocais – Tato Fischer

Iluminação – Kiko Jaess

Preparação Corporal e Coreografias – Augusto Pompeo

Criação de cenário, figurinos e adereços – Luis Carlos Rossi

Assistente de Figurinos – Natália Volpe

Criação e edição de imagens – Zeca Rodrigues e Renata Borges

Pesquisa de imagens – Décio Pinto, Zeca Rodrigues e Renata Borges

Criação Gráfica – Edu Reyes

Assessoria de Imprensa – Sonia Kessar

Coordenação de Produção – Paulo Del Castro

2 comments 21/09/2009

Tudo o que vocês precisam saber

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Vocês ainda nem nasceram e eu já estou aqui, escrevendo para vocês. Na verdade, eu ainda nem sei se vocês existem, mas mesmo assim já estou aqui. É medo. Não, não tenho medo de vocês. Tenho medo do que me tornarei. Li recentemente dois livros que me marcaram muito. Um autor que escrevia um livro após a morte do seu pai e outra que escrevia para que seu pai a conhecesse antes de morrer. Não quero escrever algo mórbido. Quero aproveitar enquanto há vida. Por isso, decidi escrever.

Dizem que quando a gente é mãe se transforma na mãe da gente. Engraçado. Quando a gente é adolescente o que justamente a gente não quer é ser a mãe da gente. Não, Elis, não quero ser como os nossos pais. Não que eles tenham feito algo de mal para mim, pelo contrário, foram excelentes! Mas quero cumprir minha promessa adolescente: farei algumas coisas do meu jeito. (Ai que medo!)

Em primeiro lugar, quero que saibam que eu também já fui como vocês. Eu sei, vocês não acreditam muito nisso, mas eu fui. Fui criança. Aliás, fui muito feliz quando criança e tenho certeza que ajudarei a vocês também serem felizes nessa fase. Adoro brincar e tenho certeza que escutaremos os discos do Toquinho, faremos teatro, brincarei de carrinho e passaremos fins de semana na praia. Prometo não ficar muito nervosa quando você chorarem (juro, vou tentar). Mas vamos tentar nos divertir juntos. Tenho certeza que vocês me surpreenderão.

Sim, a infância é mágica, mas eu sempre quis crescer logo. Não sei se esse sentimento será despertado em vocês. Caso aconteça, lembrem-se de mim: não tenham pressa. Não há nada mais interessante nessa vida. Por favor, vamos ficar juntos durante a adolescência. É sério! É uma fase dificílima e eu a levo a sério. Prometo que entenderei a importância de uma espinha, a vergonha da primeira menstruação e até o desejo de perder a virgindade. Não serei amiguinha de vocês para que não passem vergonha, mas juro não ser careta. Preparem-se. Nessa fase vocês vão chorar muito, achar que a vida acabou, que conheceu sua alma gêmea, que os pais não prestam, que a escola censura, que fugir é o melhor remédio. O que posso prometer é estar preparada para quando vocês quiserem ficar sozinhos e fingirem que eu nem existo.

Lembrem-se disso: a adolescência passa. Aí crescer já não é tão mal. Façam o que quiserem da vida para serem felizes. Na verdade, quase tudo. Não escolham profissões “pré programadas”. Prometo ajudar, mas quero esforço. Se quiserem ser jogador de futebol ou cantora de bolero, eu prometo apoiar, virar tiete e tudo mais. Mas queiram ser algo. Isso é muito importante. Não façam com os outros o que não gostaria que fosse feito para si. Também não sejam ingênuos. Existe sim gente ruim no mundo. Esforcem-se muito que o mérito de alguma maneira vem. Acreditem na sorte, nos amigos e nos pais. É preciso acreditar em algo sempre. Seu tataravô (achei que nunca iria dizer isso) dizia que para se viver é preciso ter dívidas. Isso é importante, tenha motivos, sempre.

Um dia vocês serão iguais a mim, estarão escrevendo cartas para os seus filhos.

Quer dizer, espero que sejam melhores, bem melhores.

Bell/ setembro 2009

PS: Não. Eu não estou grávida. É uma homenagem a duas pessoas muito especiais que estão esperando dois lindos bebês. Não divulgarei os nomes por respeito a elas. Mas quero que saibam que estou muito, muito feliz por vocês. Espero ser a próxima.

6 comments 11/09/2009

Amor inventado

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Quando a gente se conheceu pela primeira vez, choveu por quatro dias. Era verão e estávamos na Bahia. Mesmo assim choveu. Foi o tempo necessário. Ficamos trancados no camping ridículo para que a gente assumisse que se amava. Quando a chuva finalmente passou e voltamos pra casa, foram meses ensolarados.

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A cada dia, o sol ía ficando mais forte.  Ao ponto que um dia não conseguimos mais abrir os olhos. Cego, você terminou comigo. Cega de amor, demorei anos tentando me acostumar com a nova estação.

Passei por fulgazes chuvas de verão, meses ensolarados, invernos sem sair de casa. Aos poucos, o clima foi ficando morno de novo. Até que te conheci de novo.

“Após dias de chuva recorde, SP deve ter mais tempestades”, diz o título do jornal que chegou a minha porta hoje. Foi o maior volume de chuva em um único dia desde 1943, quando ainda nem éramos nascidos. Eu sabia. Depois do nosso reencontro no fim de semana prolongado eu não precisava nem ver a previsão. As trovoadas anunciaram que teria que enfrentar pacientemente uma semana de uma sublime tempestade.

Espero a chuva passar.

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Por Bell Gama

setembro/2009

3 comments 09/09/2009

Procura-se

Ela não era uma. Ela era muitas. Todas as mulheres são muitas, são várias, são tantas que ás vezes até se perdem de quem realmente são. Mas ela se perdia para se encontrar.

Aos treze anos conheceu seu primeiro namorado. Rodrigo era recém chegado na escola. Feio, bem feio. Ninguém sabia direito a história dele. Ele falava pouco. Tinha uma feição fechada. Logo começaram os rumores. Ele era repetente e havia sido expulso da escola anterior. Ninguém queria ser amigo do mau elemento. Movida por um espírito maternal ela quis. Foi seu primeiro beijo. Escondido, na saída da escola com gosto de cuspe. Coração na boca e ela se apaixonou. Assumiu o namoro e em poucos dias passou de representante de sala para a habituée da sala da diretora. Revoltou-se. Um dia, se trancou no banheiro, fez um rabo de cavalo e cortou seus virgens cabelos compridos cultivados desde a infância na altura do queixo. A mãe, quando a viu na cozinha de cabelos curtos tomou um susto. Ela simplesmente pegou um copo de água e voltou para o quarto. Tinha se transformado numa pré-adolescente revoltada.

Aos quatorze anos conheceu Francisco. Caipira de uma cidade ainda menor do que a dela, tinha um erre puxaaaaado. Ela achava meio cafona, mas também achava bonitinho. Ele não era o mais lindo da cidade, mas tinha uma bela caminhonete e ficava a noite inteira andando pra cima e pra baixo na rua principal da cidade. Ela ficava sentada na observando o vai e vem. Um dia ele finalmente parou esse trajeto de carrossel e começou a conversar com ela. Como ele, tornou-se tímida. Foi uma noite inteira de papo que terminou com uma serenata que ela não ouviu. Na época, era moda parar a caminhonete na janela da garota e colocar o som na última altura. Ela, que sempre teve sono pesado, achou que estava sonhando. Nunca tinha ouvido uma serenata, ainda mais de música sertaneja. Aos poucos virou uma autêntica peoa de rodeio.

Aos dezessete mudou de escola. Guilherme Abulquerque Alcântara estudava na sua sala. Filho de um conhecido empresário da cidade, fazia questão de mostrar através de suas roupas importadas o quanto de dinheiro tinha. No começo ela o achava um metido. Mal conversava com ele. Inclusive, ele até a desprezava. Na formatura foram para Cancun. Para ele, era mais uma viagem internacional. Para ela, a primeira vez que andava de avião. Para ele, a viagem foi paga a vista. Ela só conseguiu ir porque o dólar estava ainda um para um. Naquela praia artificial, tombados de tequila ficaram pela primeira vez. Ela gostou da coisa. Gostou de desfrutar o amor no mar caribenho. Passou a andar com cartão de crédito em punho. Parou no free shop, gastou todo o seu dinheiro e chegou em casa patricinha.

Aos dezenove passou na faculdade. Achava que já se conhecia. Havia escolhido o curso de jornalismo e encarava os namorados como uma verdadeira pesquisa de campo. Foi surpreendida por Rafael, nem feio, nem bonito. Usava óculos e tinha barba raspada. Perto dos outros namorados, parecia homem. Inteligente. Ela disputava com ele as melhores notas. Por amor platônico trocou a turma do fundão pelas primeiras carteiras. Os trabalhos em grupo renderam belas transas. Comprou um óculos de grau. Formou-se como oradora da turma.

Passou dos vinte. Foi roqueira. Foi surfista. Foi DJ. Foi atleta. Foi hippie. Foi skatista. Foi culturete. Foi. Foi. Foi. Até hoje ela está se procurando.

Por Bell Gama

(agosto/2009)

4 comments 12/08/2009

Branco

Quando escrever é seu ofício, escrever por prazer torna-se muitas vezes um peso. Alberto Manguel, que sabe muito o que diz, fala que não existe como escrever por hobby. Infelizmente, escrever coisas que acredito ou que gosto é o meu hobby e por isso não me intitulo escritora. Meu trabalho é outro. Consiste em escrever análises de carros, interpretar números estatísticos da indústria, criar pautas para um site, um jornal e um programa de televisão, no qual também sou apresentadora. Sim, são muitos afazeres. Muitos que fiz questão de acumular por ser workaholic e um “pouquinho” controladora. Mas não estou aqui para reclamar do quanto de trabalho tenho tido nos últimos tempos com os lançamentos que realizamos aqui na empresa.

“Estou muito ocupada” é um clichê que não gosto muito. Não gosto de ouvir nem de falar. A não ser para despistar algumas coisas que não gosto muito de fazer. Sim, sou muito ocupada, mas isso nunca foi desculpa para mim. Sempre consegui de maneira frenética encaixar as coisas do trabalho com pequenos prazeres particulares, como escrever.

No entanto, o que me torna ausente aqui, nesse blog, é um momento de extrema falta de inspiração (ou para os intelectualóides, de “reflexão”). Tenho lido muito, o que sempre me ajudou. No entanto, acho que tenho lido excessivamente e vivido pouco. Minha inspiração também sempre veio das histórias que eu vivia ou que eu observava. Hoje acho que quanto mais leio e menos vivo. Quanto mais leio, vejo como tem gente interessante escrevendo. E é neste ponto que o bicho pega! Você começa a repensar no que escreve e chega a seguinte conclusão: “como eu tenho coragem de postar alguma coisa nesse blog?”.

Nunca me importei em me expor. Não sou, nunca fui e infelizmente acredito que jamais serei uma pessoa reservada. Nunca havia tido esse pavor de me expor. Dizem que quando somos jovens, somos mais corajosos e que quando mais velhos, não nos importamos mais. Acho que estou no meio termo. A beira dos trinta anos, virei menos corajosa do que era e ainda não tenho maturidade o suficiente para “não estar nem aí”. Fora a minha idade, acho que a exposição que vivenciei como filme “De assalto”, foi muito forte. Acredito que vivo  um recolhimento intuitivo. Hoje consigo ver o quanto foi emocionalmente difícil ter feito tudo aquilo. Mais difícil ainda foi expor um filme numa tela gigantesca que parece que te sufoca com os seus defeitos, suas decisões… A vontade que dá é sumir, refazer. Por isso, também não me intitulo cineasta.

Enfim, não sei porque estou escrevendo tudo isso aqui. Nunca quis transformar esse blog num relato pessoal. Acho muito prepotente pensar que tem pessoas querendo saber o que faço da minha vida. No entanto, ao entrar por dias seguidos aqui e não conseguir postar nada, absolutamente nada, me deixa triste.

Por isso, prefiro não deixar essas páginas em branco.

Por Bell Gama (agosto/2009)

5 comments 03/08/2009

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