Archive for Abril, 2008
Sebo
SEBO
Do latim, sebum. 1. Produto da secreção das glândulas sebáceas, composto de restos celulares, gorduras, colesterol e substâncias saponáceas, com função de proteção da pele que amacia e isola do meio exterior. 2. Substância gordurosa e consistente extraída das vísceras dos ruminantes. 3. Livrarias onde vendem livros usados.
Acrescento uma quarta definição a nojenta descrição: armazém de dedicatórias que guarda em si livros rejeitados por histórias desconhecidas cujo proprietário do local é um verdadeiro mecenas a insistir que deves ler determinado livro pagando um módico preço.
Se minha rinite sempre repeliu os sebos do meu caminho, hoje os enfrento com a trilha sonora de meus espirros. Meus olhos ao correrem os livros do local não mais lacrimejam o pó, mas sim ao ler as dedicatórias. Curiosidade de quem gosta mais da história por trás da história do que a história em si. Tristeza de quem a vê vendida e guardada desleixadamente muitos romances perdidos.
Dedica-se um livro a algo importante. Presenteia-se com um objetivo específico. Mas qual o caminho que ele percorreu até chegar aquele lugar? Falta de lugar na estante? Querer passar a história adiante? Simplesmente livrar-se daquilo.
Freqüento os sebos. Compro os livros. Mas ainda não tenho coragem de vender o que me foi dedicado.
Add comment 28/04/2008
Aurélio
O encontro começou como um jogo. Atira para cima, abre a página e vê onde cai. Destino jogado ao vento, escrito nas páginas do pesado livro. Descontextualizando sua função para ver se assumia uma nova já que repousava imóvel desde as lições da quinta-série.
Reutilizado na brincadeira, agora pousa imóvel no criado-mudo. Hoje, ele explica voluntariamente as palavras que são expelidas da minha boca. Já saem quase com vontade própria. Herança das últimas leituras. A percepção se deu ao não conseguir mais falar muito. Só demasiadamente. Hoje as palavras repousam a minha espera no livro que envelheceu estante.
Abro-o e elas tomam um novo sentido. Nunca antes visto pelo meu olhar ainda miope. Procuro a mais certeira para traduzir os sentimentos. São exatas, específicas, pontuais, precisas, rigorosas, esmeradas e perfeitas.
Triste é o verbete de dicionário. Frio e não contempla a grandeza de sua função.
DICIONARIO – SM. Conjunto de vocábulos duma língua ou de termos próprios duma ciência ou arte, dispostos alfabeticamente e com os respectivos significados ou a sua versão noutra língua.
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Criado Mudo
Do lado direito da cama, me oferece de bandeja.
Todas as noites deparo com ele ali, silente e imóvel a minha espera. Nada mais intimista. Encerra meus segredos em si. Minhas calcinhas, das mais shakespereanas às mais Henry Miller. Minhas meias, feios objetos, mas de grande utilidade. Aquecem uma das partes mais estranhas do corpo, mas que a tudo sustém. Isso não importa. Mexer nas minhas gavetas ainda não é permitido.
Pequenas coisas acontecem. Destino de Amélie. Poucos são capazes observá-las. Para mim o criado-mudo pela primeira vez diz mais do que luminária e porta-jóias. Agora, apóia meus livros como um lembrete: “leia-me”. Para quem entra no quarto é um outdoor a expor o que está prestes a ser lido. Títulos e autores revelam minha secreta e íntima identidade. O que os títulos dizem ao meu respeito? O que os autores falam de mim? Retrato fiel do que vivo ou do que tanto queria viver. Realidade ou ficção.
Hoje meu criado-mudo fala.
Criado-mudo, nova versão corrigida por Tom Gama
Add comment 11/04/2008
Solitária
Estava com solitária. Mas nunca comi carne de porco. Pelo menos não crua, daquelas que professor de biologia fala que faz ter solitária. Era taenia solium ou taenia saginata? Não sei. Também não comi terra. Tenho pavor das histórias das crianças que comem terra, comem tijolo… já ouvi até de gente que come sabonete. Não sou uma delas. Na minha casa nem tem jardim. Aliás, tem. Mas é um jardim para ser visto, não para se lambuzar de terra. Minha mãe nunca permitiu isso. Aliás, não entendi porque nunca ninguém percebeu que eu tinha solitária. Tenho repulsa dela. Tenho vergonha. Acho que nunca mostrei. Acho que nunca falei.
Interpretação simples, disse minha terapeuta. Era a primeira vez que um sonho tão óbvio como esse se manifestava. Por outro lado, nunca tinha tido um sonho tão figurativo. Sempre senti a solitária dentro de mim, mas nunca quis falar dos meus vermes. Agora eles povoavam meu sonho e faziam lembrar o vazio que se instaurava dentro de mim. Não bastava a revolta adolescente, os amores inventados e as deprês de fim de tarde. Agora, o vazio todo tinha uma forma que habitava dentro de mim e consumia vorazmente tudo que me servia de alimento, diet, light ou não.
Saí do consultório com a cabeça em parafuso. Passei na livraria. Encontrei meu diagnóstico. Na página 12 do Dr. Llosa estava “ Traduzindo em imagem, direi que você acaba de fazer algo que, dizem, algumas senhoras do século XIX, preocupadas com a gordura e resolvidas a recuperar uma silhueta de sílfide, faziam: engolir uma solitária. Já lhe aconteceu alguém que carregasse nas entranhas esse abominável parasita?”
Parabéns, Dr. Llosa! Acaba de encontrar. E agora? Linhas `a frente ele concluía: “ A vocação literária não é um passatempo, um esporte, um lazer refinado que se pratica nas horas vagas. É uma dedicação exclusiva e excludente, uma prioridade `a frente da qual nada pode passar, uma servidão livremente escolhida que transforma suas vítimas (suas ditosas vítimas) em escravos”.
Nunca tinha encontrado minha vocação ou fugia dela. Passei inúmeras seções terapêuticas falando de emprego, de trabalho até que ela disse: então porque não abandona este emprego? O pior foi quando disse: mas quais são os seus planos? E eu fiquei por dez minutos dizendo as minhas possibilidades de ascensão na empresa quando ela interveio: Acho que não entendeu a pergunta, não perguntei qual o seu plano de carreira. Perguntei: o que você quer fazer da sua vida?
Pergunta difícil… que há anos procurava responder. Sei lá, faço tudo bem, respondia sempre. E ía levando, alimentando a solitária com tudo o que podia ser alimento: baladas, chocolate, homens, viagens… até igreja evangélica eu tentei. Nada satisfazia a maldita!
Agora eu já sabia. A solitária estava ali. Era minha. Carregaria-a sempre comigo. Tinha que parar de ter repulsa e conviver. Ou melhor, achar a melhor maneira de acalmá-la com alimento.
Devorei Llosa.
Devorei Rubens Paiva.
Devorei Flaubert.
Devorei Clarice.
Devorei Machado.
Devorei Guimarães Rosa.
Devorei Kafka.
Devorei Goethe.
Devorei Camus.
Devorei Garcia Márquez.
Estou devorando Balzac.
E continuo com um apetite desgraçado. Incrédula por nunca ter provado Cervantes, Borges, Cortázar, Dostoiévski, Manuel Bandeira, e tantos outros.
Finalmente, agora as letras alimentam minha revolta solitária.
Isabella Moreira Gama
04/04/2008
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