Archive for Maio, 2008

O FILHO DELES, por Carolina Gama

O FILHO DELES

Eu tenho dois joysticks no meu videogame e um deles continua na caixa.

Não dá pra jogar bola sozinho e aí eu até hoje eu não sei cabecear muito bem.

Meus bonecos do comando em ação ficam lá jogados.

É que não dá pra trazer nenhum dos meus amigos em casa. Não que eu não queira. É que tenho vergonha…

Um dia, o Artur queria passar em casa pra ver meu álbum do Pokemón, completinho,.mas eu não deixei. Eu fiz ele esperar lá na portaria, subi e passei voando que nem o The Flash pela sala só pra eles nem notarem, catei meu álbum e, como os dois já estavam brigando logo pela manhã, fiz minha mochila e dormi na casa do Artur.

A mãe do Artur é bem legal. Ela faz bolinho de chuva à tarde e ajuda ele na lição.

O pai do Artur é melhor ainda. Quer dizer, o Artur reclama, diz que ele é quietão mas é isso que é o bom. O pai do Artur fala assim bem baixinho e depois que se levanta da mesa dá um beijo estalado na testa da mãe dele e vai ler jornal em frente à TV. E um dia, na casa do Artur, a gente tava vendo TV depois da janta e eu acabei dormindo esparramado no carpete.

Lá em casa eu nunca dormi assim na sala porque meu pai chega e aí eu já tenho que estar no meu quarto. Não é que eu tenho que estar, quer dizer, eu sou grande e não tenho mais horário pra dormir não. Eu poderia até assistir o Jô seu eu quisesse. Mas eu prefiro estar no meu quarto.

Acho que minha mãe também prefere estar no quarto quando meu pai chega. Mas aí não adianta nada porque ele chega e fica gritando “Maria Teresa, abre essa porta!!!”.

O Pedro, primo de segundo grau do João da minha sala, tem pais separados. Aí, sabe o que ele disse? Que ganha dois presentes de aniversário!!! Olha só que legal. E também ele vai no Morumbi com o pai dele ver o São Paulo jogar, “quando é dia de visita”,ele falou…

Eu às vezes penso que meus pais deviam separar porque um dia, depois que o papai gritou e gritou até as duas da manhã, ouvi ele chorando e olha que só vi ele chorando uma vez quando a vovó morreu e mesmo assim ele só chorou uma lágrima, pelo olho direito. Mas esse dia não. Ele chorou bastante que eu ouvi…

Os meus vizinhos velhos vivem me passando a mão no cabelo e perguntando assim: “Menino, está tudo bem lá na casa?”. Eu queria que eles ficassem mais é quietos. Eu queria que a minha casa fosse mais quieta. Assim bem baixinha como lá no Artur…

 

Add comment 19/05/2008

ELE, por Antonio Carlos A. Gama

ELE

Ontem de manhã, aconteceu de novo.

Bem que eu tento me segurar, deixar passar, ir levando, mas chega uma hora que não dá para agüentar. Dou um duro desgraçado, saio às sete horas de casa e passo o dia a visitar dezenas de clientes, carregando minha pasta enorme e pesada, com amostras das enciclopédias e dos livros de arte que tento vender. Mas, que diabo, neste país quase ninguém quer saber de livros de arte e enciclopédias, ainda mais depois da maldita internet… Volto para casa sempre depois das onze da noite, exausto, com as mãos calejadas, os pés doendo e morto de fome. Sou um homem grande e gordo, com uma fome de leão. Durante o dia, por causa do trabalho e para economizar, como umas porcarias pela rua, que não me satisfazem. Quando chego em casa, quero paz e, principalmente comida decente. O que me espera, porém, é um prato feito, com as sobras da comida por quilo que Maria Teresa teima em comprar porque não gosta de cozinhar. Nem pão fresco encontro. Maria Teresa tem mania de ginástica e de magreza, vive na academia com as amigas, quase não coma, toma água e chá o dia inteiro e quer que eu faço o mesmo. Quando algum ânimo me resta, vasculho a geladeira ou vou até a padaria da esquina e compro alguma coisa para melhorar o prato frio guardado. Frito uns ovos ou um bife, faço um omelete, abro uma lata de sardinhas, preparo uma salada. Maria Teresa permanece trancada no quarto, vendo filme no vídeo-cassete, lendo, falando ao telefone com as amigas ou fingindo dormir. E se não lavo os pratos e as panelas depois, encontro tudo sujo na manhã seguinte, quando acordo e vou fazer o café, antes de sair.

 

Por isso acabo perdendo a paciência e faço a única coisa que posso: grito, berro e reclamo de Maria Teresa. Não sou violento e jamais poria a mão nela, que é pequenina e frágil, perto de mim, um homenzarrão. Então, para desabafar, eu berro, com a minha voz de trovão. Quando jovem, fui um sujeito expansivo, cheio de amigos e adorava cantar em festas e serenatas. Todos elogiavam a minha voz de tenor e cheguei até a pensar em fazer canto lírico. Mas a inesperada gravidez de Maria Teresa me obrigou a deixar os sonhos para trás, casar e partir em busca de sustento. Já não canto há muito tempo e a minha voz só me serve mesmo para esbravejar. Devo assustar a vizinhança, apavorar as criancinhas, mas não passo de um gigante manso, gordo e infeliz. O pior é que, quando perco a calma e me ponho a berrar, Maria Teresa me irrita ainda mais, dizendo coisas e me provocando com sua voz baixinha.

 

Durante a discussão de ontem, ela disse que ia pegar a passagem de avião que ganhou de um tio rico e sumir. Quem saiba seja melhor assim e quando eu chegar em casa hoje, o silencio finalmente se instaure.

 

1 comment 16/05/2008

Maria Teresa, por Bell Gama

Maria Teresa

Mudei-me para São Paulo para morar onde nunca antes havia morado: em um prédio. Hoje, a distância entre a porta da rua e a própria rua é ainda maior. Para chegar até em casa passo por nove vagarosos andares e inúmeras pessoas as quais por mais que cruze todos os dias, nunca saberei o nome ou muito menos a história. A nós, será sempre o restrito contato de “bom dia” ou quando se está de muito bom humor “está frio, não?”. Mas aprendi, que é assim, acho até mesmo que existe algum código velado que diz que simplesmente se deve comportar assim.

Enquanto a distância entre a rua e minha casa aumentou e o caminho a percorrer para se relacionar com as pessoas também aumentou, uma pessoa rompeu com esse distanciamento cada vez maior: Maria Teresa. Não a conheço, ou melhor dizendo, nunca a vi. Mas, aprendi que em cidade grande é assim: as histórias são anônimas, não tem rosto nem cheiro, são apenas histórias soltas. Mas, tenho certeza, esses últimos anos foram os mais difíceis da vida de Maria Teresa.

Sei de tudo que acontece, pois a minha vista é de frente para a casa de Maria Teresa. Não dá para espiar, mas também não dá para deixar de escutar os gritos DELE. Eu o chamo de ELE pois não sei o nome DELE, só sei que é marido de Maria Teresa e tem um timbre de dar inveja a qualquer tenor. Também, nunca me importei em descobrir o nome DELE já que é só coadjuvante. A heroína é mesmo Maria Teresa.

Não tem dia nem hora marcada. Mas acho que nunca perdi nenhum momento significante da vida de Maria Teresa. Sei que o show vai começar quando ELE berra: “Maaaaaaria Teeeeeeresa!”. Como sempre, acontece uma pausa e ele começa: reclama da cozinha, joga o prato de comida no chão, reclama do filho, reclama até de nós, silenciosos ouvintes. Mas ninguém interfere. Normalmente o show não tem hora também para acabar, ELE berra, berra, berra até a garganta agüentar (e olha que demora).

Maria Teresa escuta, com a maior paciência, mas não a ouvimos falar. Como uma heroína sua voz é doce. Mas ela nem precisa falar, nós, como mulheres, já sabemos o que Maria Teresa argumenta, o que explica, o que tenta. E nada, nada, acalma ELE.

A primeira vez que os ouvi, não entendi direito o que estava acontecendo, porém nunca esqueci. Já era de madrugada. Recém – chegada a cidade grande, lembro-me que fechei todas as janelas e me escondi atrás da cortina para que não me vissem. Fiquei com medo do poderoso timbre DELE. Mas logo acostumei e percebi que ELE não se importa em ser ouvido e de qualquer maneira não é possível vê-los nem ser vista. Agora, escancaro a janela e não perco um só momento.

Ontem, Maria Teresa ameaçou de ir embora. ELE disse para ela pegar aquela passagem de avião que ela ganhou e nunca mais voltar. Não gostaria nunca que essa novela terminasse, pois sentirei falta da Maria Teresa. Mas torço, como fã, para que o silêncio se instaure a partir de hoje como sinal de que Maria Teresa, finalmente, se encorajou e abandonou ELE.

Por Bell Gama

1 comment 12/05/2008

Coming Soon

Add comment 07/05/2008


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