Archive for Junho, 2008

Mais um, Por Bell Gama


Mais um

 

Chega estampado


Manchete, retrato

Com venda nos olhos


Legenda e as iniciais


Eu não entendo essa gente,


Seu moço!


Fazendo alvoroço demais

“Meu guri”  - Chico Buarque

 

Quando nasci o espelho estava trincado. “É prematuro”, todos diziam. Cresci me sentindo diferente. Na escola, aprendi escrever com a mão esquerda. A professora dizia que eu era como “Carlos, gauche na vida”. Muitas vezes pensei que esse Carlos era o pai que não conheci. Nunca entendi. Larguei a escola.

Não foi a única coisa que abandonei. Saí de casa aos 14. Não suportava os pedidos choramingados de minha mãe. Até era uma boa pessoa, mas pegava demais no meu pé. Decidi me fazer sozinho.

Rondei muito tempo por aí. Parei porque estou nesse cubículo quatro por quatro. Por um tempo achei que seria notícia de jornal. Nunca saiu nada, nenhuma linha. Também não fiz nada tão importante assim. Coisas da vida.

Ela foi a única que tentou me visitar aqui. Não deixei. Não é lugar para ela. Mesmo sabendo que ela estava com uma baita pizza quatro queijos que fazia minha boca salivar só de pensar não deixei. Sou orgulhoso, sempre fui.

Tenho 21. Não sei por quanto tempo vou ficar. Nem tenho pressa. Nada me espera lá fora. Acho que nem ela. Se nasci antes da hora, agora sei que a hora nunca foi certa pra mim. Prefiro ficar aqui, deixa o tempo passar.

Pediram para eu escrever sobre a minha vida. Não há nada tão interessante para ser contado. Na verdade, lembro de muito pouco. Minha memória nunca foi das melhores. Diziam que era por falta de ferro. Também nunca entendi porque o que a minha mãe mais fazia era me bater quando eu esquecia a tabuada. Ela batia, eu corria, e era sempre assim. Fiquei rápido.

Mas ainda não o suficiente. Foi o que senti quando me pegaram. Achei que escaparia mais uma vez. Mas não consegui, me pegaram de jeito. Mais uma vez apanhei bastante. Não me importo. Sempre apanhei e nunca derramei uma lágrima. Já disse… sou orgulhoso.

Escrever sobre o que eu quero da vida? Não sei. Já disse que não espero muita coisa. Acho que ela também não espera muito de mim.   

 

Bell Gama 23/06/2008

Add comment 24/06/2008

Por uma noite, por Bell Gama

Por uma noite

“Feliz, teria sido encantadora: a felicidade é a poesia das mulheres,

como o vestuário é o seu adorno.”

 Honoré de Balzac

 

Ofegantes e felizes saíram da Graça do samba rumo a famosa rua de nome de mulher corajosa. Perdidos na noite paulistana, subiram a rua em busca de um destino. Encontraram na boite cafona que ostentava em neon vermelho o nome Maison.

Elas tiveram que convencer o amigo que seria uma aventura interessante. Diante do estado alcoólico e do pouco dinheiro disponível acreditaram que aquele era o lugar.

Ao invés de belas e fogosas mulheres, garotas comuns entediadas a espera de rapazes.

Ao invés de rechonchudos senhores endinheirados, dois coreanos cabisbaixos que não agüentavam erguer o próprio copo.

Ao invés de uma prostituta loira de filme hollywoodiano, Joyce. Morena, gordinha, baixinha e simpática.

- “O que fazem aqui?”, perguntou curiosa.

- “Não sei”. Respondeu a amiga

- “Posso dançar no palco?” Perguntou a outra.

- “Claro, realize-se.” Joyce respondeu.

Seguiu a risca. Ela, que não dançava nem em pista cheia de discoteca esfumaçada, subiu no palco e tomou o lugar de estrela da noite. Sentiu-se envergonhada e chamou o amigo para a pista. Juntos, fingiram que aquilo tudo era uma grande brincadeira.

Joyce, rindo, deu dicas. A amiga, constrangida, deu força. O amigo, bêbado, a empurrava de volta ao palco.  Mas ela não se sentia uma daquelas mulheres. Ela, que sempre se uma, se comportou como uma menina.

Tomou mais um gole de coragem no Campari e decidiu ir em frente e ser a mulher que sempre achou que fosse. Tinha dado tantos passos para chegar até ali, havia passado por tantos tropeços que sentiu não ter mais retorno. Precisava continuar a jornada para dentro de si. E foi fundo, foi além.

Ofereceu-se. Ela, que nunca havia pedido uma promoção no emprego, se valorizou e pediu alto. Ele aceitou.

Subiram para o quarto chinfrim no andar superior. Diferente das outras vezes que havia se deitado com um homem pela primeira vez, ela não teve medo. Estava preparada. Tirou a roupa e deixou a luz acesa. Conduziu a situação como se fosse personagem de si.

Ao final da hora programada ela perguntou receando a resposta:

-       “Tem algo mais que eu possa fazer?”

Ele olhou bem no fundo do olho dela e disse:

-       “Diga que me ama”.

Ela não conseguiu dizer a frase que sempre quisera falar.

Deu o seu corpo, não o coração.

Agora sim, se sentia uma delas.

 

13/06/2008

2 comments 16/06/2008


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