Archive for Julho, 2008

Tédio

Coça a cabeça

Espreme a espinha

Tira o pêlo

Anda

Anda

Anda

Bebe água

Volta ao banheiro

Achei outro pêlo

(ainda bem!)

Volta pra sala

Nada na TV

Internet não tem

Preguiça de ler

Telefone na caixa postal

Anda

Anda

Anda

E nada

Bell Gama/julho 2008

1 comment 31/07/2008

Tatuagem

Tatuagem

 

Meus pés estão gelados

Não posso usar meias

Fiz uma tatuagem que mesmo ainda em cicatriz revela “Sê inteira”

O frio dos meus pés só atiça o medo

Agora, todos saberão o que acredito

Posso escondê-los em um tênis

Um dia, o calor pedirá passagem e as havaianas grifarão meu segredo

Marcado a agulhadas

Lembrado a cada passo meu

 

Bell Gama – julho 2008 

5 comments 17/07/2008

Sobre a autora


Sobre a autora

 

” Pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera:

ía ser outra que não eu mesma”. 

Felicidade Clandestina – Clarice Lispector

 

Chamaram-me Isabella.

Eu me chamo Bell.

 

Intitulei-me Bell Gama na quarta-série quando achei que deveria ter um nome artístico. O nome eu consegui. Todos hoje me chamam assim, até mesmo meus pais.

 

Cheguei um dia atrasada na oficina de formação de escritores, quando respondi abruptamente a pergunta do professor sobre o meu nome. Além de ter respondido de sopetão o nome que os meus pais haviam me dado, fui pega de surpresa ao ver que os meus colegas cumpriram a difícil lição de casa, inspirada na crônica de Ignácio de Loyola Brandão, em que deveriam de alguma maneira defender seus nomes. A tarefa se apresentava mais difícil do que inscrever-me neste curso. Além da defesa, deveríamos expor a todos o nosso texto quase biográfico.

 

Por solidariedade `a exposição dos meus colegas, exponho meu primeiro defeito. Menti. Não faltei a primeira aula porque estava em reunião de trabalho. Na verdade, fui fazer uma tatuagem com o famoso verso de Pessoa – o qual não sabia direito quantos era.  Agora a tatuagem revelada me leva a escrever este texto. Preciso ser inteira nesta segunda aula.

 

É impossível escrever com um estilo novo diante de tantas confissões que ouvi. Se a Abrão, como prefere ser chamada, escrevesse esse texto, provavelmente discorreria brilhantemente sobre os dois eles do meu nome. José, por sua vez, traria reflexões complexas de pensadores que ainda pouco conheço para explicar o meu “não nome”. Maria Cláudia, com sua sinceridade admirável me fez revisitar meus textos antigos na busca daquela em que me tornei. Talvez pudesse ter recorrido a alguma crônica para ser mais leve, mas ela não seria tão bem humorada como a do Edson. Não passei também pela experiência de Dimas, que teve seu nome trocado pela professora, afinal, meu sobrenome, como do Thiago, é simplesmente Moreira Gama. E, definitivamente, não tenho histórias como Chico Espeto.

 

Minha falta na aula na primeira aula, me faz sentir que não posso trazer nada tão autêntico e novo como tudo aquilo que ouvi dos meus colegas. Ao defender seus nomes para uma pessoa anônima como eu, eles me mostraram quantas opções ainda estão a minha frente e que meu batismo como escritora ainda nem foi feito.

 

O nome é Bell.

A artista ainda está por vir.

 Espero que, quando vier, seus textos a defendam.

 

Bell Gama julho/2008

 

2 comments 16/07/2008

Fast Food

Fast Food

Se não tivesse perdido os ingressos do show de Paulinho Moska eles jamais teriam voltado. Decidida a viver uma noite de paz diante do turbilhão de sentimentos que sentia no peito, ela comprou os ingressos e convidou a amiga. A música alta, a escuridão do show e a fumaça do gelo seco a fariam esquecer de todo seu sofrimento. Melhor, ele odiava o Moska.

A vingança de ir solteira a um show que ele tanto odiava não deu certo. Misteriosamente os ingressos sumiram de sua bolsa. Provável fruto de sua distração. Ela sempre teve mania de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e acabava socando tudo dentro de uma bolsa gigante, que ele odiava.

Ao chegar na porta do show e perceber que havia perdido os ingressos, não agüentou. “Há um iceberg em você, que eu tenho que derreter”, soou como um gatilho. Chorou compulsivamente sentindo-se incapaz de não conseguir ir em um show sem ele. A amiga, tentando ajudar, foi atrás de algum cambista para conseguir novas entradas. Não adiantou. Nem adiantaria.

Amparada nos braços da amiga rumou a lanchonete de fast food mais próxima. Sentindo-se miserável se entupiria com um hambúrguer de quinta categoria para vingar-se da vegetariana que ela tinha se tornado por conta dele. Respeitar o bom gosto dele por salmão já não fazia o mínimo sentido.

Estava na fila cabisbaixa e envergonhada do rosto inchado de tanto choro quando ouviu uma voz familiar.

-       Um duplo com bacon, por favor.

Com o coração na boca, ela levantou os olhos sabendo o rosto que iria encontrar. 

Sem graça de ter sido encontrado na lanchonete que tanto odiava, ele disse baixinho.

-       Senti saudade.

 

Bell Gama/julho 2008

Add comment 11/07/2008

Conjuntivite, por Antonio Carlos A. Gama

Meu pai me deu o prazer de escrever um pouco sobre o momento em que me encontro. Com os olhos infestados de uma conjuntivite que não sara nunca…. 

Conjuntivite

Agora, não bastasse a solitária, ela está com conjuntivite. Conjuntivite, como se sabe, é uma inflamação da conjuntiva. Mas também é uma congestão, ou, segundo o velho e bom Aurélio, uma afluência anormal do sangue aos vasos de um órgão.

Interpretação simples, diria sua terapeuta. De tanto devorar Lhosa, Rubens Paiva, Flaubert, Clarice, Machado, Guimarães Rosa, Kafka, Goethe, Camus, Garcia Márquez, Balzac, além de provar Cervantes, Borges, Cortázar, Dostoievisky, Manuel Bandeira, e tantos outros, o seu olho sofreu uma congestão.

Logo ela que não acreditava que as palavras podem valer por mil imagens, ou por tantas imagens quanto o leitor for capaz de conceber.

Ainda bem que foi só um olho. O outro ainda está bom (embora possa vir a ser contaminado pelo olho congestionado). Enquanto isso, ela pode continuar a se empanturrar de ler, embora no ritmo do samba de um olho só. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é rei, ou rainha.

Eis que me ocorre a paródia da marchinha carnavalesca:

“Leitura, menina,

Tem vitamina,

Engorda (apenas o espírito)

E faz crescer.”

Cresça e aconteça.

Não deixe que sua solitária morra de fome

Antonio Carlos A. Gama (junho/2008)

Add comment 01/07/2008


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