Archive for Agosto, 2008
Miopia
MIOPIA
“Ele queria ver mais as coisas, todas, que o olhar não dava”.
Guimarães Rosa - Manuelzão e Miguilim
“D-E-G-H”
“Parabéns!” – Disse o oculista `a garota.
Ela não comemorou. Sua irmã um pouco mais velha acabara de ganhar óculos. Seu pai usava óculos. Sua mãe não usava por teimosia, mas era míope. Depois da consulta, ela passou a ser a única que enxergava diferente.
Inconformada, pediu aos pais um par de óculos. Eles sempre respondiam caçoando da garota:
“Para você, só óculos escuros!”
Ela não se conformava e todo ano, quando a irmã voltava ao médico, aproveitava a consulta e pedia para a sua visão ser medida novamente. Enquanto o grau de sua irmã aumentava, a visão dela continuava perfeita. Acertava sempre todas as letras. Algumas vezes pensou em errar de propósito, mas nunca teve coragem pois tinha medo de acharem que ela não havia sido alfabetizada corretamente e a obrigarem a freqüentar aulas particulares.
Além dos óculos, ela queria colocar gesso e aparelho.
O gesso conseguiu. Rompeu o ligamento do tornozelo sete vezes. Não de propósito já que depois da primeira torção viu que aquilo doía pra diabo. Como uma praga, a cada passo em falso, seu tornozelo voltava a parecer uma bola de tênis. Piorou quando passou a usar salto alto. Sentiu-se uma idiota por não conseguir andar tão bem quanto as amigas. Mas a falta de elegância tinha a explicação que tanto a orgulhava.
O aparelho nos dentes ela também nunca conseguiu. Algumas vezes colocava um clipe de papel esticado na boca e contava para todos na escola que havia colocado aparelho. Na época, os meninos ficavam encantados. Diziam que meninas de aparelho beijavam diferente. Seu primeiro namorado usou aparelho, e quando ela o viu comendo coxinha desistiu de consertar seus dentes quase perfeitos.
Um dia, a garota que agora já era mulher, pegou uma forte conjuntivite. Sua vista ficou embaçada por mais de um mês. No começo, ela achou graça e não foi ao médico. Depois, entrou em desespero. Tudo o que ela costumava ver com nitidez estava embaçado e sem definição.
Decidiu voltar no oculista que cuidava de seus olhos perfeitos há mais de vinte anos. Mal conseguia ver o semblante envelhecido do médico. Ele quase não a reconheceu.
Fim do tratamento. Voltou ao retorno da consulta, pois sua vista continuava embaçada. Ainda desesperada, perguntou ao oculista:
“Não vou sarar nunca?”
Neste momento, ele lhe deu o presente que ela sempre esperou:
“0,75 de miopia”
Ela sorriu e mesmo com as pupilas dilatadas foi à ótica mais próxima, comprou os óculos do seu sonho.
Agora ela enxergava como todos os membros da família.
Bell Gama – agosto 2008
7 comments 13/08/2008
Constantino, por Bell Gama
Constantino
“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões eu amava. Não sabia que somando as incompreensões que se ama verdadeiramente.”
Felicidade Clandestina – Clarice Lispector
Ele nasceu em uma segunda-feira, ás 9:00 da manhã sob o signo de virgem, ascendente em virgem. É destro e joga na defesa. Sempre trabalhou em atividades burocráticas até alcançar o posto de gerente de uma corretora de seguros. Se tivesse uma filha, ela se chamaria Ana, e nasceria de cesariana. Não gosta de música, não gosta de poesia e usa gel no cabelo.
Todas as noites cumpre o mesmo ritual. Após colocar o pijama bege, estica o braço, alcança a gaveta do criado-mudo e pega o pequeno dicionário de sonhos. Antes de dormir, concentra-se, tentando programar o que irá sonhar.
Colecionar dicionários de sinônimos, antônimos, rimas, xingamentos, verbos e até mesmo de sonhos é uma de suas muitas idiosicrasias. Ordenar seu inconsciente mesmo que dormindo, a mais nova delas. Já obteve algum sucesso. Começou o exercício com o primeiro sonho descrito no livrinho. Esforçou-se como nunca para sonhar com abelhas zumbindo ao seu redor, o que significaria produtividade e bons ganhos. Mesmo sem resultados práticos, continua tentando. Mais importante do que o significado é conseguir sonhar aquilo que programou. De letra a letra, já estava no verbete “dinossauro”. Segundo seus cálculos, cento e quarenta e sete noites seriam suficientes para atingir o fim do livro.
Mora sozinho num pequeno, mas confortável apartamento, situado no primeiro andar, pago em suaves prestações que se findarão em vinte anos. Ontem de manhã, sem saber porquê, não desceu pelas escadas e deu-se ao luxo de pegar o elevador.
Enquanto descia, resolveu contar quantos segundos demorava a descida ao térreo. Desconcentrou-se quando a porta se abriu. Trombou com uma moça alta, de olhos claros, cabelos cacheados e unhas mal pintadas de um vermelho berrante. Um tanto confuso por haver mudado a rotina, ficou ainda mais desconsertado com aquela estrangeira extravagante em seu território.
No caminho para o trabalho, foi contando os passos, como de costume. À porta do escritório, deixou escapar um sorriso orgulhoso pela conta ter sido certeira mais uma vez. Ao sentar na sua mesa, arrumou os clipes, apontou os lápis, colocou um copo de água temperada do lado direito, limpou a tela do computador com uma flanela e passou o dia a fazer cálculos.
Na hora do almoço, colocou a salada do lado direito do prato, o arroz do outro lado, em cima o feijão e mais em cima ovo, estrategicamente no meio. Um filé de frango bem passado garantiria suas proteínas diárias.
Voltou ao trabalho contando os mesmos cento e vinte passos do percurso até aquele restaurante onde tinha conta. Por alguns momentos a moça alta e esfuziante invadiu seus pensamentos. Chacoalhou a cabeça para que ela não interrompesse sua concentração. Seis da tarde. Arrumou a mesa, verificou os compromissos agendados para o dia seguinte, bateu o ponto e saiu. Quatrocentos e cinqüenta e sete passos depois, estava em casa.
Ao se deitar, depois de colocar o pijama, bem que tentou, mas não conseguiu programar o sonho daquela noite.
Estava apaixonado.
Por Bell Gama, agosto de 2008
3 comments 04/08/2008

