Archive for Setembro, 2008

Jogo da Amarelinha

” (…) Mas o que é a recordação, afinal, senão o idioma dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos no discurso adiantando-se disfarçados `a coisa em si, ao presente puro, entristecendo-nos ou lecionando-nos vicariamente até que o próprio ser se torna vicário, o rosto que olha para trás abre muito os olhos”

Cortazar

Add comment 29/09/2008

Misto Quente

Misto Quente

 

Ela cometeu mais uma vez o mesmo erro. Girando nesse carrossel interminável que é a sua vida e com uma esperança de que ele finalmente entendesse o que ela não conseguira dizer no útimo encontro, enviou o texto para ele.

 

“Achei OK” – foi a resposta dele. Tiro certeiro! Seria apenas  mais um capítulo tolo do jogo que brincavam? Mesmo com medo de que seus textos fossem realmente apenas “OK”, ela postou em um blog sem medo de expor o que sentia.

 

Como já havia deconfiado, ele não merecia mais figurar em suas páginas. Ou melhor, ele não queria ser mais um personagem na sua efêmera trama. Seja por qual motivo fosse, ela decidiu mergulhar a sua tristeza naqueles homens que jamais a dispensariam.

 

Optou então por um desprentesioso e grosseiro Bukowski. Erro reincidente. A narrativa de “Misto Quente” lembrava ele. Até o título trazia ele de volta para a sua memória. Para ela, ele era o sanduíche sem graça, que ela acaba comendo todas as noites sem enjoar.  Palavrões, confusões adolescentes e o eterno mal humor de Henry Chinaski a faziam lembrar dele. Encarou como um processo de rompimento. Um dia o livro acabaria, assim como a lembrança dele.

 

No auge do sofrimento, uma mensagem inesperada. Um autor desconhecido e que ela admirava secretamente lera a sua última crônica postada e comentou:

 

Deliciosa a forma como escreve… eu nem me importaria em ser eternizado numa crônica “dela”…rs”.

 

Era o elogio que ele nunca deu. Mas que sempre sonhara em ouvir. Alguém a compreendia e finalmente queria ser seu personagem. E agora, de fato era.  

 

Suas palavras não seriam mais  sobre ele. 

Sua boca não tinha mais dono.

 

Por Bell Gama

Setembro/2008

1 comment 20/09/2008

Outra história

Era sempre igual. Apaixonava-se, sofria e escrevia. A tríade verbal a atingia a cada dois anos (ou dois meses). Cansada desta interminável sina, havia se decidido: não se apaixonaria mais.

Enquanto a paixão por eles diminuía, a paixão pelos livros aumentava. Suas folhas em branco passaram a ser preenchidas não mais por experiências amorosas mas sim por pensamentos sobre novas coisas que passaram a lhe inspirar. Assim estava feliz e calma, como nunca antes.

Com o seu  “pseudo equilíbrio” a bordo decidiu viajar. Armou-se com seus autores preferidos e saiu do país. Ninguém no mundo seria mais interessante naquele momento do que DostoiévIsky.

De repente, “Memórias do subsolo” ficou chato. Ele roubara a atenção puxando um insistente assunto. Ela fechou o livro e decidiu tentar mais uma vez a história que já sabia o fim.

Agora ela se encontra escrevendo sobre mais um deles. E ele, definitivamente, não merecia que o texto fosse escrito. A cada letra que acrescentava nas linhas, o arrependimento se intensificava na mesma velocidade.

Só por raiva, decidiu não revisar o texto. Se o fizesse, o deletaria. Assim como tentou deletar de sua memória os últimos dias juntos. Não procurava nada. Mas é impressionante a capacidade que as pessoas têm de invadir o coração quando ele está tranquilinho, batendo a apenas 80 batimentos por segundo.

Assim como não queria escrever uma nova velha história, não queria ter aceitado o beijo dele. Como todos os outros, dizia-se acostumado a ganhar o que queria. Ou pelo menos, mentia que conseguia. Ela acreditava, embora fingisse que duvidasse.

Nesse jogo confuso de ser o que não é, mostrar o que gostaria ser e no fundo fingir que não se está nem aí, o vencedor fora ele. Agora ele era mais um figurante de suas crônicas. Destino inevitável. Ele vive nessas linhas impulsionado pela sua última e arrebatedora frase:

- Beijos nessa sua boca minha.

Me rendi. Sou dele.

 

Bell Gama

Setembro de 2008

1 comment 01/09/2008


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