Archive for Outubro, 2008

Raiva

“um móbile solto num furacão” (Paulinho Moska)

Acende um cigarro

O silêncio irrita

Coloca o fone de ouvido

Essa música não

Escolhe outra

Essa também não

Nem esta, nem outra nem qualquer outra

Não há música…

Acende outro cigarro

Apaga porque não quer

Range os dentes

Bate com os dedos na mesa

Levanta, bufa e deita.

Cabeça pulsa

Respira fundo

Fecha o olho

Tudo igual

Por Bell Gama (outubro-2008)

2 comments 30/10/2008

Dez minutos

, não. eu ainda não te esqueci. a dor não é mais tão pontiaguda quanto antes. na verdade é. mas aprendi a disfarçar. na verdade agora ela é mais espaçada. antes, lembro bem, ela era pontiaguda e sincronizada. a cada dez minutos eu lembrava que você não estava mais na minha vida.

quando a gente se separa é assim. fica meio cego. não sabe mais o que gosta, não sabe mais o que quer fazer. não sabe mais porque fazer as coisas. aos poucos vai se descobrindo de novo o que gosta um pouquinho, o que sabe fazer um pouquinho. na verdade, só por raiva, a gente experimenta outras coisas e vai descobrindo que para sobreviver a gente não pode mais ser o que era.

como se a gente enterrasse a gente mesmo para poder nascer outro. pra que não se sofra tanto, a gente finge que já é outro. não, não sou tão neurótica quanto dizem, como você dizia. foda-se.  posso até ser. mas muita gente, muita gente que conheço também é. menos você. que tenho certeza que continua insuportavelmente o mesmo. com aquele mesmo jeito que eu sempre gostei. com aquele jeito que todo mundo gostava. com aquele jeito que parecia que a gente tinha nascido um para outro. o pior é que nascemos. não vivemos mais um para o outro.

opção idiota a sua. um gole de cerveja e tua boca não conseguiu segurar a surpreendente frase de que “acho que preciso um tempo para mim”. não vou nem repetir aqui o discurso clichê que veio em seguida. na verdade, nem escutei. a primeira frase deixou o restante inaudível. sei as frases que vieram depois. Ridículas. Injustas. Egoístas. 

e eu que te dei todo o meu tempo… agora você queria o tempo inteiro para você. e eu? o que faria com o tempo restante? até hoje tento preenchê-lo.

Em vão.

cada vez consigo ocupá-lo mais. me entulho de trabalho. me abarroto de amigos. me cego nos livros. me afogo na bebida. mas sempre vem aqueles dez malditos minutos de ócio para me lembrar que você existe.

você ainda existe. é o pior fantasma da minha vida. aquele que sei onde mora. sei o telefone. sei como é. sei até o que está fazendo agora. mas que tenho que fingir para todo mundo que não vejo.


“Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu” 

(Eu te amo – Chico Buarque)

 

 

Por Bell Gama – outubro de 2008

Add comment 27/10/2008

Carne viva

 

dedico isso a minha amiga Gill,

única a ter coragem de sentir coisas desse tipo em plena segunda-feira

 

,não espero nada. tá bom, eu espero. espero o mínimo. espero a sua compreensão exata do tamanho das coisas. não tem como deixar de falar. ela já está em mim há dois anos. pregada no meu pescoço.

não me subestime. não se superestime. não se trata de você. aliás, não é só sobre você. é também sobre você. na verdade, é sobre nós. 

claro, ela é só mais uma no meu corpo já tão marcado. também não foi a última. já tem outra. mas ela é a única que não revelei. na verdade é única que ainda estava escondida. sim, estava escondida de você. tá certo, também estava escondida de mim. mas agora eu revelo.

até porque ela já não tem tanta importância. sim, ela ainda tem importância. se não tivesse, não precisaria falar tudo isso. mas talvez esta seja a última importância que eu quero dar a ela.

mas também não quero que você dê demasiada importância. se quisesse, teria falado antes. mas não quis. até porque muito conversamos sobre isso. claro que não sobre isso e nós. mas sobre isso, embalados na música do Chico. isso assustou. acho também te assustaria. o meu gesto não era tão grandioso e romântico como o aclamado na música. para mim foi só mais um dos gestos. tá certo, o mais concreto deles. aquele que, diferente das outras coisas, não vou conseguir voltar atrás, que não vou conseguir desdizer.

quero sinta a dor da agulhada. não, na verdade não quero que sinta. deixa pra mim que sou mais forte. quero que sinta o prazer do eterno, do perpétuo, do que não tem fim. assim como ela é. assim como o que sinto.

ilustração daquilo que vivemos.

dois corações.

tatuados no pescoço.

que você nunca viu.

que eu também já quase não consigo mais ver.  

 

“Quero ver a cicatriz

Risonha e corrosiva

Marcada a frio

Ferro e fogo

Em carne viva”

(Tatuagem – Chico Buarque)

 

Por Bell Gama

Outubro de 2008

2 comments 21/10/2008

Naíma

Naíma

أصفى من الدمعة

Provérbio árabe: “Mais puro que uma lágrima”

 

Era uma vez…  Não era uma vez! Esta não é a fábula de uma heroína infantil. É desta vez a história da heroína da minha infância.

Não lembro direito como a conheci. Ela sempre esteve ali. Consigo descrever com perfeição quando ela sumiu. Na verdade não foi assim de supetão. Ela foi se despedindo aos poucos para que quando fosse, não sentíssemos tanto o baque de sua partida. Mais do que saber viver, ela soube morrer.

Hoje, no momento em que escrevo com facilidade o seu obituário, penso que nunca me senti tão preparada. Preparou a todos e mais do que tudo, a si. Soube disso quando ela me afirmou com aquele profundo olhar azul: “Estou com saudades do seu avô.” Tive a certeza de sua preparação quando encontrei no fundo do seu armário uma linda caixa com o vestido azul e as jóias que queria ser enterrada. Tudo isso poderia ser dramático se ela não tivesse deixado aquele caderninho preto com as recomendações: os números dos telefones das amigas que queria presente, o desejo de ter a sala enfeitada com muitas flores (não artificiais, por favor!), a vaidade de estar maquiada e a ordem de continuar escondendo sua idade.

Desta vez, cumpri todas as ordens a risca. Na infância, não foi bem assim. Várias vezes, quando ela me mandava dormir, eu eu ficava com uma lanterna embaixo das cobertas lendo o último capítulo do Monteiro Lobato. Quando ela me pegava no pulo, eu não recebia bronca. Era um carinho na testa, um beijinho no rosto e com toda doçura ela tirava a lanterna de mim e colocava onde não pudesse mais alcançar. Era com esse mesmo sorriso que ela deixava que eu interrompesse o chá da tarde com as amigas para fazer desfiles com as suas roupas. Ela, inclusive, aplaudia orgulhosa, sem ficar brava por atrapalhar o assunto dos adultos.

A casa dela era um capítulo a parte. Quando eu chegava no fim de semana deixada pelos meus pais, parecia que ía para uma tortura. Chorava compulsivamente durante dez intermináveis minutos. Depois, via aquele quintalzão na minha frente, tirava o meu sapato e nem lembrava mais que tinha outra casa. Tudo podia. Podia pegar a lenha do fogão e fingir que era cenário de novela. Podia molhar a torrada com manteiga na xícara de leite. Podia ficar sem tomar banho (mas tinha que lavar o pé antes de dormir). Podia tomar sorvete com três bolas no domingo (mas só depois da missa, mas na missa, podia ficar rodando naquele salão imenso até ficar tonta). Podia ter medo do quadro da sala em que figurava assustadoramente o D. Pedro I e chorar pedindo colo. Podia até engasgar com bala Soft. Eu só ainda não podia ter o segredo do imenso cofre que ficava na sala.

Hoje eu tenho. Dentro dele não havia nenhuma jóia ou dinheiro já que como processo da sua despedida ela já tinha se desfeito de tudo. Documentos de sua chegada no Brasil, livros do seu recente curso de inglês e seu tesouro secreto: todos os meus desenhos de infância, cartinhas e fotos.

São tantas coisas para escrever em um obituário de tão poucas linhas que não consegui encontrar palavras suficientes. Quem não a conheceu, ficará com o sentimento de que ela morreu jovem. Cumpri a ordem e tirei uns 20 anos de sua data de nascimento. 

Entre tantas respostas que ela deu para a minha vida, uma delas, eu só entendi depois que ela foi embora. Era o segredo de minha heroína: a imortalidade da nossa alma vive nas lembranças que deixamos. Assim, até hoje, a vovó vive. 

5 comments 20/10/2008

Cuidado, frágil.

Cuidado, frágil.

A vida finalmente havia entrado nos eixos. Era segunda-feira de manhã, inicio de dieta, parando de fumar e a caminho do trabalho, pontualmente. Estava no táxi. Olhei a paisagem da congestionada avenida. Até mesmo a confusão de buzinas fazia sentido. Finalmente havia me acostumado com o barulho e me sentia em casa. Sorri. Era a primeira vez que tudo estava tão coerente e equilibrado.

A menina desceu do ônibus com sua mochila. Ao redor dela, outras tantas pessoas pareciam ter o mesmo destino, mas ela estava com pressa. Saltou rapidamente, olhou para o lado, viu o trânsito parado e decidiu correr. Devia ser dia de prova. Estava atrasada para a aula e na sua cabeça só havia passado a necessidade de chegar o mais rápido possível a faculdade. Um carro interrompeu seu caminho.

Mensagem no celular logo de manhã. Fiquei feliz com o toque. Alguém se lembrava de mim logo cedo. Minha curiosidade me obrigou a pegar o celular mesmo dirigindo. Sorri ao ver que era uma mensagem de Laurinha, uma amiga querida. Ao invés do texto que combinaria o nosso encontro a noite,  a mensagem: ligue para a Ana, o pai dela acaba de falecer de uma súbita pneumonia.

No meio de um dia atribulado de trabalho um delicioso e casual encontro com meu amigo de infância no escritório. A conversa começa com as banais perguntas sobre sua nova vida de casado. Como comadre desta história não pude deixar de perguntar sobre a Carol, que eu não via há algum tempo pois sabia que ela estava no interior há alguns dias.Costumeiramente voltávamos para a nossa cidade para visitar a família. Desta vez, a visita de Carol não tinha o rotineiro motivo. Haviam descoberto um pólipo gigante em seu intestino. Não sabíamos se era benigno.

Fim de reunião. Dia de fechamento. Momento de comemorar. A tradicional chuva e trânsito levam os amigos para a mesma pizzaria de sempre. Meia noite, hora de voltar pra casa.. Há oito anos dirijo pelas mesmas ruas. Sempre amedrontada pelos possíveis assaltos, passo no sinal vermelho. Reduzo a velocidade e olho para o lado. Há um caminhão descendo bem devagar a rua. Acho que dá tempo de passar. Atrás do caminhão vem um carro em alta velocidade. Não vejo mais nada.

Era sexta-feira a noite. Meu carro perde o eixo, assim como a vida.

Por Bell Gama

Outubro de 2008

2 comments 05/10/2008


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