Archive for Janeiro, 2009
Traição do tempo

“Essas lembranças não são tristes, Carlos. E tem horas que a gente tem que lembrar as coisas que já passaram pela vida da gente, as pessoas queridas, os momentos felizes. E até dos infelizes que ajudaram a fazer a gente. Eu fiz 36 anos este ano. Já tenho um bocado de coisas para lembrar, a esta altura da vida”.
Ana Maria Machado, “Canteiros de Saturno”
Disseram que minha mente me traiu. Pediram que eu pensasse em você. Dolorosamente, após anos separados tentei buscar no fundo da minha memória você, nós.
De fato, não lembro. Precisei lançar mão das nossas fotografias. Sabia que elas um dia teriam alguma serventia. Por meio delas fui à Bahia, ao Rio de Janeiro, a Minas Gerais, a Las Vegas e até ao nosso antigo apartamento. Memória estática, sorriso congelado.
Olhei-me no espelho. Meus cabelos estão diferentes, não tenho mais aquelas roupas, não conheço mais aquelas pessoas e, confesso, algumas rugas já se instalaram no meu rosto. Acho que uma delas devo a você. Não sou mais aquela da foto. Nem você. O tempo que nos separou e que sempre me pareceu tão cruel também deve ter feito essas estripolias com você. Aquele não existe mais. Talvez nem aqueles lugares. Muito menos a nossa relação.
Não lembro mais o seu nome completo. Não tenho mais seu endereço. Não comemoro mais o dia do seu aniversário e não sei mais o seu signo. Percebi que não lembro mais da sua voz. Nem daquela que me disse “eu te amo” nem aquela que me disse “adeus”. Aliás, entre essas duas afirmações eu não lembro mais nada. Não lembro das vírgulas, das interjeições, nem das exclamações. Só lembro do começo e do fim.
Não lembro mais de nós. Já não sei mais se o pouco que tenho na memória foi vivido ou se foi uma história inventada.
Sim, minha mente me trai ás vezes. Você, que era tão nítido no meu pensamento, está sofrendo um efeito especial do tempo. Esvaindo.
Bell Gama
Janeiro de 2009
3 comments 29/01/2009
Palavra de biscoiteiro
Não tem coisa mais bonita nessa vida do que caipira vendo o mar! É verdade! Todo dia aqui na praia, a gente sabe quem é daqui e quem não é. O cara fica com aquela cara meio de abobado assim, olhando, olhando… Igual aquele cara que teve aqui semana passada. Coitado dele…
Eu tava passando assim, vendendo meus biscoito né? Eu vendo aqui bem na frente desses hotel chique de Ipanema porque a gringaiada adora Globo. Caipira então… come como se fosse coisa do outro mundo! Tem uns que vejo até guardar embalagem de lembrança! Aí eu tava passando: “Globo, Globo, Bissssscoito Globo, salgado e doce” e vi o sujeito homem chegando. Ele atravessou a avenida com duas mulheres. Uma que parecia ser esposa dele a outra uma filha bem bonitinha, de uns 20 anos.
Ele veio já com cara de pasmado. Parecia que num via o mar nem sei desde quando. A mulher dele chegou chegando, pediu cadeira pro Pelé, pediu guarda-sol, começou olhar bijuteria e não parava de fofocar com a filha. Ele, todo calmo, tirou a bermuda e mostrou aquela brancura toda. Daí logo vi que ele não vinha pra praia faz tempo…tinha só aquela marca de caipira, de bronzeado de camiseta.
Aí ele sentou, pediu uma caipirinha pro Zé e vi que era hora de vender meu biscoito. Falei: “Compra aí patrão, para salgar a goela pra birita descer melhor.” Ele deu risada e comprou. Mas continuou com aquela cara… olhando para o mar… e eu fiquei lá olhando pra ele. Eu gosto mesmo de olhar caipira vendo o mar!
Ele deu a última golada na caipirinha, virou pra mulher e disse: “vou entrar no mar pra tirar a zica” e foi todo todo pro mar. Chegou na beirinha assim e bum! Tomou o maior tombão! Caiu de bunda na areia dura que todo mundo se matou de rir… mas aí a gente viu que era sério, o cara tava com o pulso todo deformado assim, meio frouxo, meio torto, meio pra fora, meio caído mesmo. Ele ficou fingindo que não tava morrendo de dor, mas correu pra mulher dele e ela começou a gritar, chamaram a ambulância e lá se foi todo mundo embora. E ele nem tinha visto o mar direito! Coitado…
Fiquei sabendo que levaram ele pro PS. PS cheio de gente furada, maltradada, na fila. Me falaram que ele nem foi atendido… ele tem grana, foi prum outro hospital e se mandou pra cidade dele. Quem me contou foi a mulher dele que ficou no Rio com a filha. Ela disse que é carioca que eles tavam de férias, que tinham gastado a maior grana da viagem e que ele quis ir embora sozinho, ficou com pena delas perderem a praia… Ela disse que ele teve que colocar pino e tudo, que foi lá pro interior fazer cirurgia. Coitado… ele só queria entrar no mar!
A mullher dele tava triste que só… aí eu falei assim pra ela: “foi bom, desviou”. Ela não entendeu muito bem e eu disse: ”a zica que ele foi tirar era maior e o tombo desviou…”
Ela sorriu aliviada e disse: “ainda bem!”
Por Bell Gama / janeiro de 2009
Em homenagem ao Papilly que resolveu começar a surfar
3 comments 27/01/2009
Despertar no escuro
A palavra francesa réveillon, vem do verbo réveiller, que significa “despertar”. O despertar do meu ano começou no dia 1 de dezembro de 2008, data em que comemorei o simbólico aniversário de 29 anos. Resolvi iniciar o meu ano novo de forma diferenciada. Em invés da usual badalação entre centenas de amigos, decidi ir para a cidade que considero a mais linda do mundo: Paris.
Achei que a distância da minha rotina tiraria o peso que sinto ao ter esta idade. Nunca me imaginei uma balzaquiana mesmo adorando as personagens de um dos meus escritores preferidos. Fiz o trajeto completo e decidi viver a nov(a)idade por inteiro. Levei “Ilusões perdidas” na mala e voltei a cidade que sempre me renova de esperanças.
A virada do meu aniversário aconteceu em um clube latino somente com uma amiga ao meu lado. É ela quem sempre está comigo nesses momentos e foia única testemunha ocular do presente que dei a mim mesma: o melhor champagne que nunca tive coragem de comprar. Bebi tudo com uma sede, que por mais que os anos passem, jamais quero perder.
Depois de passeios inesquecíveis durante o dia, que reviveram momentos felizes de aniversários passados, encontrei minha outra amiga que me hospedou e que me prometia uma surpresa especial há tempos.
Confesso: detesto surpresas. Sempre sou aquela que faz surpresas mas não tenho muito jeito para recebê-las. Tenho medo de não gostar, medo de não responder a expectativa daquele que me surpreende. Em suma: sou muito ansiosa e controladora.
O fato de saber que haveria uma surpresa já me fez ficar com borboletas na barriga durante o dia todo. Tentei especular de todas as maneiras para descobrir o que aconteceria mas não consegui. Ela realmente havia feito um trabalho perfeito, sem deixar uma suspeita sequer.
Horário combinado, banho tomado, metrô, alguns quarteirões adiante e Karine pára em frente a um lugar que ostentava o seguinte letreiro “Le dans noir.”
- Vamos jantar no escuro!
A frase dita alegremente por ela soou como uma bomba na minha cabeça. Pensei que talvez ela tivesse confundido as palavras ao pronunciar a frase em português. Em seguida ela soltou uma lista de ordenamentos:
- Tirem relógio, celular, isqueiros, qualquer coisa que possa iluminar. Tirem casacos, cachecóis, qualquer coisa que possa atrapalhar a movimentação. Não pode fumar, não pode fazer xixi e não pode falar alto!
Nesse momento eu quase chorei. Ela arrancou todos os meus referenciais em apenas uma fala! Senti que não era uma comemoração e sim uma punição. Eu já me sentia triste por estar completando quase 30 anos e a comemoração no escuro, sem brinde e no silêncio me soava uma verdadeira não-comemoração.
- Ah! E o menu é surpresa!
Com a última frase revivi meu aniversário de 9 anos. Na ocasião, minha mãe contratou uma falsa Cuca do Sítio do Pica Pau Amarelo para animar a festa achando que eu adoraria quando na verdade eu morria de medo daquele monstro! Meu paladar infantil acostumado com arroz e batata frita jamais conseguiria suportar um menu surpresa parisiense!
Como não podia me portar como a criança que sentia por dentro, respirei fundo e ouvi a Karine terminar a explicação dizendo que aquele restaurante existia somente em Paris e Londres e era premiadíssimo pois todos os garçons eram cegos e o objetivo era fazer uma experiência sensorial de não só passar algumas horas em completo escuro como também aguçar todos os sentidos, especialmente o paladar.
Antes que você pergunte: sim, o restaurante é completamente escuro. Não, não há um feixe de luz sequer. É escuridão total. Um escuro mais escuro do que qualquer escuro que você já tenha visto. Mais escuro que a cegueira branca de Saramago. Mais escuro do que o medo de qualquer criança. Um escuro que dá náusea e claustrofobia. Tanto que nos primeiros minutos, fiquei aliviada ao ver, ou melhor, ao ouvir minha melhor amiga dizendo que queria ir embora e que não ía agüentar aquela sensação. Pensei: Oba! Se ela sai, eu também saio!
Neste momento, lembrei da frase de Shakespeare que estampava a camiseta Frank, o simpático garçom: “The darkness is not a problem, but the ignorance.” Para nos afastar do medo do escuro, ele acariciou a mão da minha amiga e nos aconselhou a respirar profundamente e ir em frente nesta experiência. Com sua paciência e sabedoria, ao invés de nos esfregar na cara a sua inacreditável capacidade de conviver com a cegueira nos fez um convite tão amoroso para o seu mundo, que nos deixamos ser conduzidas por ele.
Se somente ficar sentado no escuro é difícil, comer é algo impossível. Não consegui usar os talheres, muito menos acertar o garfo na boca. Não conseguia distinguir nem se o vinho era branco ou tinto e qualquer coisa que eu conseguisse comer com as mãos me dava náuseas. O gosto fica com mais gosto, a textura com mais textura. A intensidade é tamanha que o medo do desconhecido me privou de degustar o prato.
A confusão dos sentidos aumenta devido ao fato de você não ouvir sua língua. Você não vê, não sabe o que está comendo e ainda não entende o que está escutando. E foi neste momento em que tentava colocar ordem na bagunça de sensações que parei de tentar compreender e mergulhei fundo dentro de mim. Um mergulho que por sempre ter tantas coisas a minha volta nunca havia feito. Um mergulho indescritível que transformou tudo o que sentia. Então o que me sufocava tornou-se pacífico, o que era pequeno e me deixava sem ar, virou imenso. Um mergulho tão intenso que jamais vou esquecer e que foi interrompido por um caloroso parabéns cantado por todos os rostos desconhecidos que estavam no salão. Uma mistura de vozes em diversos idiomas que me encheram de alegria. Foi neste momento que Karine me trouxe de volta para a realidade com a pergunta:
- Bell, o que foi, está quieta?
Estava sorrindo. Ninguém via. Eu sorria finalmente para mim.
(janeiro/2009)
*Meus sinceros agradecimentos a Karine que me presenteou com o aniversário mais inesquecível da minha vida.
8 comments 06/01/2009
