Archive for Março, 2009
Insone
Fechou o livro da Clarice e pensou.
“Você me dá insônia.” – Não, Clarice! Não você!
Quando está longe de mim, me dá insônia. Quando está perto, não consigo dormir.
Estou cansada. Quero um amor de dormir de conchinha. Mas você não. Quando dorme do meu lado, ocupa a cama inteira. Ás vezes sofre daquele síndrome que vi na televisão… das pernas inquietas. As suas teimam em sair da minha cama e ir atrás de outras.
Sofro. Ás vezes a insônia me inspira. Até a exaustão. Escrevo, arrumo as gavetas, começo um livro, pinto um quadro, faço planos. Isso! Preciso de um plano! Preciso de um plano agora. Mas vou ter que esperar amanhecer… tá todo mundo dormindo. Até a Clarice repousa no criado mudo.
Não agüento mais esperar. Minhas olheiras começam a dar sinal de vida. Justo eu que nem olheiras tinha. Mas é isso que você quer… quer que eu fique feia, bem feia. Pra você ir atrás de outra…. Vai de uma vez! E me deixa dormir!
Que raiva! Você não some! Não, não vou ouvir música nenhuma. A música vira trilha sonora dos meus pensamentos. Tudo vira um vídeo clipe. Putz… que vídeo clipe! Eu ganharia um prêmio com esse vídeo clipe, eu poderia pelo menos sonhar com esse vídeo clipe… Eu poderia viver esse vídeo clipe…
Não! Não tem vídeo clipe nenhum. Não tem música, não tem som. Teu show acabou. Foda-se, acabou! Agora é você quem não vai mais dormir! Vou te acordar!
Por Bell Gama
Março 2009
3 comments 30/03/2009
Lily Braun e o comparsa Biscate
“Vamos ao cinema, baby
Vamos nos mandar daqui
Vamos nos casar na igreja
Chega de barraco
Chega de piti ”
(Chico Buarque – Biscate)
Como na história de Lily Braun, o homem dos sonhos (mais um) apareceu. Dancing saiu de moda nos anos 80. Por ter nascido nessa mesma década ele não aprendeu a dançar. Falta-lhe o ritmo.
Nos conhecemos e reconhecemos em um só relance na festa de um amigo comum. Os zooms dos nossos olhos foram sincronizados. Depois de uns drinks, também perdemos a pose. Assim, bastou mais um zoom dos seus olhos de ressaca para eu ir atrás.
Tímida, ainda não sabia o que fazer. Em um só abraço, beijou-me o ouvido e disse: “Deixa de siricotico!” Me desmilingui toda em seus braços. Arrebatada no seu beijo, me senti no foco central de um filme de cinema europeu.
Atuei eu mesma. Fiz minha melhor performance. A cada encontro uma nova cena. Fomos ao cinema, fomos a Bahia, fomos ver o sol nascer, brincávamos até de casar na igreja. Ele atuou como o biscate do cinema mais barato. Algumas vezes mandou rosas, ás vezes um poeminha e muitas vezes não mandou nada. Nunca banquei o papel de esposa, mas cansei de bancar a inadimplência amorosa e ser trocada por um jogo qualquer como Flamengo e River Plate.
Dei piti. Disse-lhe de uma vez por todas que estava cansada de fazer tudo, bolo de fubá, pitu de dendê e ainda servir tudo pra ele na cama… e ele nada comer! Cansei dele ir atrás de outro rabo de saia… e nada de comer!
Perdi a pose. Ele me tirou do close. Troquei o filme pelo samba e fui me benzer.
“Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz”
(Chico Buarque – A história de Lily Braun)
Por Bell Gama
março 2009
1 comment 29/03/2009
De assalto
De assalto
Esperavam esse encontro há um mês. Não tinha data marcada, mas sempre esperavam. Vez ou outra ela voltava `a cidade onde foi criada e se encontrava com ele. Não eram namorados. Pode-se dizer que eram amigos. A proximidade entre eles estava na intensidade. Seus encontros esporádicos sempre se tornavam epopéias que terminavam quando o sol anunciava a chegada de um novo dia.
Ele era ator. Ela era jornalista. Eles gostavam do drama. Sangue, suor, coração acelerado, histórias inéditas, loucuras indizíveis, viagens não planejadas, bebida, música, choro e orgasmo. Se experimentavam ao máximo. Para isso, dispensavam os amigos e guardavam tudo sob segredo. Ninguém entenderia. Não se deve contar o segredo da mágica.
Mais uma noite que começou estranha. Sem saber onde ir, rodaram, procuraram um banco, viram um bar, não acharam bom, viram outro, também não. Decidiram parar em qualquer um. “Mexicano”, ele pediu. Ele adorava pimenta. Ela adorava tequila. Nada é definitivo, aqui é só o começo, eles sempre diziam…
O garçom cansou-se deles, os únicos clientes do local. Continuaram a odisséia. Nada fluía. Queriam mais. A sede os levou ao posto, onde compraram a tradicional garrafa de Smirnoff, quatro Red Bulls e um saco de gelo. Eram a companhia indispensável para discutir Stanislavski. No carro, ainda na primeira dose, discutiram que o russo renegou a teoria da memória emotiva. A memória emotiva dela os levou para a praça onde ela havia passado a infância. Queria mostrar para ele de onde vinha, matar as da saudades da menina que cultivava dentro de si e que ficava aprisionada na claustrofóbica capital. Ele gostou da idéia e planejaram que a próxima praça seria a dele.
Desceram do carro com os copos e celular a tiracolo. Ele pediu para que ela escolhesse uma música. “Em toda selva do meu ser, nada ficou intacto. Na fronteira de um oásis, meu coração em paz, se abalou. É supresas demais que trazes…” . Ela falou da época em que a praça era apenas um terreno baldio onde tentava convencer os meninos a ensiná-la a empinar pipa. Ele riu do desejo dela de ser moleque e também lembrou das suas traquinagens. Lembrou da expulsão do colégio católico, de sua tendência a anarquia. Ela lembrou das corridas de montain bike, do futebol americano, dos ralados na canela. Ele lembrou da cachaça no boteco, do primeiro emprego, de como já gostava de fingir que era outro, mesmo quando ainda era criança. Djavan anunciou “Boa noite”. Foram até o carro preencher seus copos. Tomaram caminhos opostos.
Foram pegos de assalto. Dois homens abordaram ele. Cercaram. Estavam armados. Ela ficou alarmada, mas sem ação. Olhou pra ele. Entendeu tudo. Ele olhou para ela. O olhar disse tudo. O coração dela apertou na possibilidade dele se machucar. Como num filme, o viu esfaqueado. Segurou pra não chorar. Ela sabia que ele não tinha muita coisa na carteira. Haviam ído para praça justamente para não cometer ainda mais excessos do que já cometiam. Para ela foram minutos longuíssimos. Para ele, tudo foi muito rápido. Ele tentou preservá-la ao máximo. Quando não conseguiu mais, foi até ela e disse que os caras queriam mais dinheiro. Desastradamente tentou ficar o mais calada possível, deu todo o pouco que tinha.
Roubaram muito. Roubaram a praça. Roubaram a noite. Roubaram a paz. Roubaram as lembranças. Roubaram o encontro. Roubaram a inocência. Roubaram a bondade. Roubaram a mágica. Roubaram eles.
Por Bell Gama
Março de 2009
Ao leitor: Estou fazendo um projeto com essa temática e ficaria muito feliz se você postasse um comentário respondendo a seguinte pergunta: Quando você se sente assaltado?
Meus agradecimentos antecipados para quem comentar. Depois conto pra você o que vai acontecer! beijos, Bell
12 comments 23/03/2009
Apego
O medo da desaparição por completo após a morte, fez o autor imortalizar seu pai nas linhas de um belo livro. É esse mesmo medo que me move a escrever sobre ela, que já está em coma há mais de quinze anos, esquecida, na última prateleira da estante.
Tê-la repousando neste lugar e acumulando pó, não foi tão fácil. Dependíamos da visita do já extinto vendedor, das pesadas prestações inflacionadas mês a mês e da curiosidade inesgotável do meu pai. Achei que ela seria minha herança.
Foi minha companheira durante muitos trabalhos escolares. Lápis, borracha e papel almaço (que também acredito que não exista mais) eram meus instrumentos. Com eles copiei, inventei e acumulei um calo enorme no meu dedo médio.
Se o ponto de consulta era único, o que vencia a homogeneidade das lições de casa era a criatividade. Ela apenas fornecia uma pequena e segura explicação de quem era Mauricio de Nassau, quais as principais árvores da Amazônia ou como havia sido inventada a lâmpada. O resto dependia da imaginação e letra caprichada. Nessa época, a nota recebida era sempre justa.
O universo inteiro cabia dentro dela. Ou será que meu pequeno universo podia ser resumido em vinte livros? Ela foi abandonada em troca da inundação de informações (inúteis) fornecidas hoje. O mundo de verdade está trancado por entre as duras e vermelhas capas da Barsa que não consigo jogar fora.
Por Bell Gama
Março 2009
2 comments 20/03/2009
Estima
- Lindo o seu cabelo. “Obrigada, fiz hidratação”.
- Bonito o seu sapato.
“Obrigada, comprei na promoção”.
E nada era ela. Nunca, nada de bonito era dela. Ela nunca se sentiu bonita. Nem por um dia sequer. A cada dia que acordava, sentia-se mais feia. As vezes se arrumava. Outras vezes ficava o dia inteiro de pijama jogada no sofá. “Como vai arrumar um namorado?” A mãe dela perguntava todo dia preocupada com a possibilidade de sua filha não deixar um herdeiro. Ela nem escutava… Achava que se tivesse que acontecer, aconteceria.
Não era solteirona, já havia se relacionado. Mas tudo era tão difícil. Os poucos que se aproximaram dela foram estranhos. Ela não entendia o porque alguém teria interesse em alguém como ela. Definitivamente não se sentia interessante. Era inteligente, quer dizer, sabia algumas coisas. Era legal. Mas também não era super legal, sofria de uma TPM horrível.
Seus breves namoros eram muito parecidos. No começo, tudo lindo. Chegava até a acreditar que poderia casar-se com tal cara. Mas, depois, parecia que eles faziam questão de ressaltar o quanto ela não era especial. Não davam flores, não elogiavam, não escreviam cartas, chegaram ao ponto de nem carinho mais fazer. Eles simplesmente chegavam e sentavam ao lado dela no sofá. E para ela, tudo bem. Para ela, o amor era uma tarde de domingo na frente da televisão.
Por Bell Gama, março de 2009
1 comment 19/03/2009
Onde a inspiração nasce
Onde a inspiração nasce
Na tragada apressada do homem no ponto de ônibus
Na lágrima contida da moça da platéia
Na conversa bêbada do engravatado no bar
No beijo de despedida dos namorados
Na dificuldade do andar do velhinho
No olhar triste do cachorro
No calcanhar da mulata
Na banguela da criança
Na vida
Na ambição do Luciano
No desejo da Capitu
Na troca do Fausto
No gelo de Macondo
Nas lentes de Miguilin
Na vida
Nas pontas dos dedos do meu pai
No cheiro da minha mãe
No abraço das minhas irmãs
Na vida
Na onda do mar
Na gota da chuva
No arco-íris
No topo do morro
No amanhecer do dia
No por-do-sol
Na noite estrelada
Na vida
Por Bell Gama, março de 2009
4 comments 12/03/2009
