Archive for Abril, 2009

Fora do gancho, por Bell Gama

 Hoje é aquele dia típico que você me ligaria.

Dia ruim, conturbado, cheio de afazeres e poucos prazeres.

Dia que vira noite e não percebo, a não ser pelas bitucas acumuladas no meu cinzeiro.

Dia de tédio, que fico no sofá, inerte diante da TV, tentando desligar minha cabeça do mundo.

Dia em que me sinto sufocada, que me dá insônia, que o tic e tac do relógio irrita.

Dia em que penso na vida, em mudar de vida, na morte e em cutucá-la de perto.

Dia em que escrevo mil coisas que não fazem o menor sentido.

Dia em que fico ao lado do telefone esperando tocar.

Bell Gama Abril/2009

6 comments 30/04/2009

O último livro, por Bell Gama

Pensava em se matar há muitos anos. Havia decidido sucidar-se ainda jovem. Queria morrer belo. Decidiu deixar descendentes. Não concordava com Brás Cubas. Ao ter filhos, seus planos se atrasaram. Não teve coragem para deixa-los órfãos e traumatizados. Mas agora estava velho e finalmente realizaria o seu sonho: a morte por opção e não como destino.

Já tinha pensado tantas vezes nesse momento que se programou para estar bem vestido: de terno e chapéu panamá. Queria que fosse no fim do dia para que o velório fosse curto, duraria apenas algumas horas da noite. Não atrapalharia ninguém. Era segunda-feira.

Almoçou dobradinha e se encheu de torresmo. Riu alto do seu colesterol alto. Banho tomado, barba feita e contas pagas. Morava sozinho e ninguém veria. Não queria uma morte violenta. Morava em uma bela casa e jamais pensou em jogar-se de um prédio ou de qualquer viaduto. Era tímido. Tinha medo de armas de fogo e sangue. Não queria colocar a vida de mais ninguém em risco.

Foi um bom pai, ás vezes um bom marido. Levantou-se da cadeira de balanço que havia ganhado no último dia dos pais. Foi até a estante. Eram duas horas da tarde. Lembrou que Bentinho também quis ler um livro antes da sua tentativa de suicídio. Adorava Machado de Assis, mas achou inapropriado para a ocasião. O danado era vivo demais e podia afastar os seus planos.

Olhou a estante recheada de títulos e pensou na vida. Pensou sobre o livro que nunca escreveu. Pensou na sua própria biografia. Nunca conseguiu encontrar um título. Qual seria a capa? Olhou para o espelho e viu que aparentava ser mais velho do que estava. Imaginou que sua biografia não daria um “best seller” e que talvez ficasse encostada e empoeirada em um sebo.

Tentou adivinhar o que escreveriam sobre sua morte no jornal. Viraria notícia? Talvez por conta do suicídio. Ficou preocupado com o que escreveriam no obituário. Seus filhos sempre foram muito ruins de língua portuguesa. Ficou com medo. Pegou um papel e pensou em deixar por escrito o que deveria estar escrito. E a lápide? Seria enterrado no túmulo da família, mas não pensou o que estaria escrito.

“Não!” Balançou a cabeça e afastou os pensamentos controladores. Estava deixando a vida e isso tudo não importava mais. Nem testamento deixaria. Não tinha muita coisa. Apenas aquela casa e os livros. Tantos que agora ele não conseguia escolher um para ler antes de morrer. 

 

Bell Gama

abril/2009 

2 comments 27/04/2009

Desperta a dor, por Bell Gama

Desperta a dor, Por Bell Gama

De repente ela ficou surda. Como se seus tímpanos tivessem estourado de tanto ouvir lamúrias. Não ouvia mais música. Não ouvia nem um pio. Não ouvia mais nada.

Pensou na voz rouca do seu pai. Lembrou-se que não precisaria mais ouvir broncas. Lembrou-se dos gritos de sua mãe durante a adolescência. Há tempos não ouvia mais aqueles gritos. Desde que decidiu morar sozinha a quietude passou a ser opcional. Era uma condição saboreada aos fins de semana, de pijama, andando prá lá e prá cá, sozinha no seu apartamento.

Não ouvia mais a voz fraquinha e doce da sua avó. Mal se lembrava da voz com sotaque carregado do seu avô. Sentia falta de algumas coisas, mas nunca falava.

Não ouviria mais reclamações do chefe. Sorriu ao pensar que pudesse ser afastada por motivos de saúde. Como poderia manter-se no emprego sem ouvir? Pensou em férias permanentes e remuneradas. Em um lugar quente e cheio de sol. Não precisaria nem levar o Ipod.

Olhou para o seu telefone. Já não tocava há um tempo. Nem se importou. Sabia que desta vez, mesmo que ele ligasse ela não ouviria. Melhor assim. Nem passaria pela angustiante espera do toque do telefone.

Imaginou a velhice. Sabia que um dia ficaria surda. Sempre soube. Velhinhos quase sempre acabam surdos e não teria que gastar dinheiro em um aparelho. Sua velhice sonora fora antecipada. Realmente estava se sentindo bastante idosa nos últimos dias.

Pensou na morte. Não ouviria o som do seu filho. Nem o primeiro choro nem, o balbuciar das primeiras palavras.

Num impulso, abriu os olhos. O despertador tocava.

Por Bell Gama

Abril/2009 

2 comments 24/04/2009

Para quem esteve sempre tão longe e tão perto

Para quem esteve sempre tão longe e tão perto,

Hoje passei na frente da nossa faculdade e lembrei de você. Lembrei do meu trote. Lembrei que depois do meu trote a gente tomou cerveja. Lembrei que você deixou um bilhete no meu fichário numa folha amarela. Nele dizia que você se lembrava de mim de uma festa em Ribeirão Preto e me deixava beijos na boca. Lembrei que eu não lembrava de você. Mas lembro que achei esse beijo meio atrevido. Lembrei que depois lembrei de você e rimos disso. Lembrei que isso virou assunto por um bom tempo entre nós dois. Até que nós saímos. Lembrei que namorei um tal de “Provolone” que eu odiava. Não lembro porque namorei ele. Mas, lembrei que mesmo assim você quis ficar comigo. Lembrei que duvidava de você e te achava um cafajeste. Lembro que você me disse: “como você quer que eu te peça em namoro sem eu te beijar?” Lembrei que eu era uma boba e protelei o beijo por um tempo. Lembrei que depois eu cedi. Lembrei que quando cedi você já estava em outra, com outras e me tratou mal. Lembrei que neste dia era seu aniversário, eu estava meio apaixonada e fui até Americana, na sua chácara, com a roupa no corpo, só para ficar contigo. Mas lembrei que você estava tão bêbado e nem se importou. Lembrei também que achei que mesmo assim valia a pena. Lembro que valeu. Lembrei que a gente saiu de novo. Lembro que tinha um pôster do Mel Gibson na porta do armário do seu flat. Lembrei que achei isso meio estranho. Lembrei que era dia das mulheres, eu estava voltando para casa de manhã no seu carro, um VW Golf, e que fez questão de não me dar parabéns só para me irritar. Lembrei que assistimos o Oscar e que você se jogou no chão do meu apartamento de felicidade. Lembrei que achava tudo aquilo tão autêntico, que você me ensinava tudo sobre cinema e que sonhava com um mundo muito maior. Lembrei que sempre soube que um dia você sairia fora, que aqui tudo era pequeno demais para você. Lembrei que você achava que eu parecia a Kate Winslet. Lembrei que eu nunca tinha achado ela bonita. Lembrei que naquele ano Titanic levou todos os Oscar. Lembrei quando nos distanciamos. Lembrei quando você se foi. Lembrei que me arrependi por tanta coisa que não disse e por tanta coisa que achava que você sabia. Lembrei da falta que você fazia. Lembrei do orgulho que senti ao ler notícias suas. Lembrei quando você voltou ao Brasil e foi me visitar. Lembrei que estava loiro, magro, não bebia mais e tinha tatuagem. Lembrei que faz tanto tempo tudo isso e que você estava tão diferente. Lembrei que mesmo assim achei que gente iria ficar. Lembrei que a gente não ficou. Lembrei que com exceção das idéias e dos desejos a gente nunca esteve no mesmo tempo e lugar. Lembrei que mesmo assim, com tudo sempre soprando ao contrário, eu sempre gostei de você. Lembrei que sempre achei que você foi um dos meus melhores amigos, uma das pessoas mais especiais que eu já encontrei. Lembrei de tanta coisa. Lembrei, inclusive, que eu nunca quero te esquecer.

Bell Gama / março 2009

5 comments 23/04/2009

Perder para ganhar – “De assalto”

deassalto_10

Faço questão de abrir um parêntese neste blog para contar sobre os últimos acontecimentos. Postei há algumas semanas um conto chamado “De assalto”. Pedi a quem lesse, que comentasse respondendo “Quando se sente assaltado”. Tive a grata surpresa deste post ser o mais lido e também o mais comentado. Muitas pessoas se identificaram com a temática e deram respostas lindas e surpreendentes. Ao escrever esse conto eu já tinha em mente a produção de um curta metragem, uma vontade antiga que nunca tinha coragem (ou inspiração) para fazer. Ao decidir executar imaginei que ele não teria o menor sentido se não contasse com uma boa dose de realidade. Por isso, utilizei os comentários como processo de preparação dos atores. Eles foram fundamentais para que toda a equipe e elenco entrassem no clima e conseguissem transmitir durante toda a filmagem a sensação de perda que temos quando somos assaltados cotidianamente.

Durante os últimos dias, mais de 20 pessoas se dedicaram de corpo e alma para a execução desse curta. Ele foi filmado na minha cidade natal, Ribeirão Preto, ao lado de amigos queridos e muito competentes. Durante esses dias, que já considero entre os melhores da minha vida, fui invadida de sentimentos bons e ruins.

Como tudo na vida, para se fazer algo, perdem-se algumas coisas e se ganham outras. “De assalto” agora entra em processo de montagem. Muitas pessoas me perguntaram qual o objetivo dele. Acho que o objetivo maior já foi conquistado: exorcizar, mobilizar e realizar. Espero em breve estar com ele pronto, fazer uma exibição e inscrevê-lo em festivais.

Foi muito gratificante sentir o delicioso gosto da realização. Fazer algo em que se acredita. Olhar nos olhos dos outros e ver que eles acreditam como você. Aprendi muito. Cada um que participou me deu uma lição. Não sei se algum dia conseguirei retribuir tudo o que ganhei. Por isso, quero aproveitar esse espaço e agradecer todos, que de alguma forma, me ajudaram. Faço questão de nomear um a um, em ordem alfabética: Adilson Ramos, Aelson Pereira, André Moraes, Andrei Furlan,  Ângelo Tapias, Anna Casanova, Antonio Carlos Augusto Gama, Cadu Ramos, Carolina Moreira Gama, Cristiano Costa, Djavan, Eduardo Natrielli, Fábio Cidrão, Fábio Tinoco, Fausto Ribeiro, Francis Wiermann, Gabriel Galhardo, Gill Dantas, Guilherme Varella, Jonathan Ferriolli, Júlia Moreira Gama, Karina Giannecchinni, Laura Farled, Leo Santarosa, Luara Donegá, Lucas Santarosa, Marcel Gomes, Márcio Bá, Maria Delucena Moreira Gama, Marina Engracia de Moraes, Maú, Michel,  Miriam Jacob, Monalisa Machado, Murilo Inforsato, Neto Donegá, Poliana Savegnago, Priscila Prinet, Regina Curio, Rafael Nalesso,  Ricardo Ortiz, Rodrigo Mora, Rodrigo Placeres, Robson Ricatieri, Sérgio Lima Gabionetta, Suzete, Taís Egea Marin Guerreiro, Tia Palmira, Virginia Vidal.

A todos: meu carinho eterno e obrigada!

3 comments 13/04/2009


Sigam-me: @bellgama

Tags

Poesia Prosa Referências Universo particular

Arquivos

 

Abril 2009
S T Q Q S S D
« Mar   Mai »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  

Páginas

Blogs que eu recomendo!