Desperta a dor, por Bell Gama
24/04/2009
Desperta a dor, Por Bell Gama
De repente ela ficou surda. Como se seus tímpanos tivessem estourado de tanto ouvir lamúrias. Não ouvia mais música. Não ouvia nem um pio. Não ouvia mais nada.
Pensou na voz rouca do seu pai. Lembrou-se que não precisaria mais ouvir broncas. Lembrou-se dos gritos de sua mãe durante a adolescência. Há tempos não ouvia mais aqueles gritos. Desde que decidiu morar sozinha a quietude passou a ser opcional. Era uma condição saboreada aos fins de semana, de pijama, andando prá lá e prá cá, sozinha no seu apartamento.
Não ouvia mais a voz fraquinha e doce da sua avó. Mal se lembrava da voz com sotaque carregado do seu avô. Sentia falta de algumas coisas, mas nunca falava.
Não ouviria mais reclamações do chefe. Sorriu ao pensar que pudesse ser afastada por motivos de saúde. Como poderia manter-se no emprego sem ouvir? Pensou em férias permanentes e remuneradas. Em um lugar quente e cheio de sol. Não precisaria nem levar o Ipod.
Olhou para o seu telefone. Já não tocava há um tempo. Nem se importou. Sabia que desta vez, mesmo que ele ligasse ela não ouviria. Melhor assim. Nem passaria pela angustiante espera do toque do telefone.
Imaginou a velhice. Sabia que um dia ficaria surda. Sempre soube. Velhinhos quase sempre acabam surdos e não teria que gastar dinheiro em um aparelho. Sua velhice sonora fora antecipada. Realmente estava se sentindo bastante idosa nos últimos dias.
Pensou na morte. Não ouviria o som do seu filho. Nem o primeiro choro nem, o balbuciar das primeiras palavras.
Num impulso, abriu os olhos. O despertador tocava.
Por Bell Gama
Abril/2009
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1.
Cadu | 24/04/2009 at 8:49 PM
e agora sou o centésimo primeiro também… desculpa, mas é que sofro de toc e precisava fazer isso.
Bjão
2.
Antonio Carlos | 28/04/2009 at 8:46 PM
Você prefere a surdez à minha “rouca voz”?
Espero que tenha sido um pesadelo…