O último livro, por Bell Gama
27/04/2009
Pensava em se matar há muitos anos. Havia decidido sucidar-se ainda jovem. Queria morrer belo. Decidiu deixar descendentes. Não concordava com Brás Cubas. Ao ter filhos, seus planos se atrasaram. Não teve coragem para deixa-los órfãos e traumatizados. Mas agora estava velho e finalmente realizaria o seu sonho: a morte por opção e não como destino.
Já tinha pensado tantas vezes nesse momento que se programou para estar bem vestido: de terno e chapéu panamá. Queria que fosse no fim do dia para que o velório fosse curto, duraria apenas algumas horas da noite. Não atrapalharia ninguém. Era segunda-feira.
Almoçou dobradinha e se encheu de torresmo. Riu alto do seu colesterol alto. Banho tomado, barba feita e contas pagas. Morava sozinho e ninguém veria. Não queria uma morte violenta. Morava em uma bela casa e jamais pensou em jogar-se de um prédio ou de qualquer viaduto. Era tímido. Tinha medo de armas de fogo e sangue. Não queria colocar a vida de mais ninguém em risco.
Foi um bom pai, ás vezes um bom marido. Levantou-se da cadeira de balanço que havia ganhado no último dia dos pais. Foi até a estante. Eram duas horas da tarde. Lembrou que Bentinho também quis ler um livro antes da sua tentativa de suicídio. Adorava Machado de Assis, mas achou inapropriado para a ocasião. O danado era vivo demais e podia afastar os seus planos.
Olhou a estante recheada de títulos e pensou na vida. Pensou sobre o livro que nunca escreveu. Pensou na sua própria biografia. Nunca conseguiu encontrar um título. Qual seria a capa? Olhou para o espelho e viu que aparentava ser mais velho do que estava. Imaginou que sua biografia não daria um “best seller” e que talvez ficasse encostada e empoeirada em um sebo.
Tentou adivinhar o que escreveriam sobre sua morte no jornal. Viraria notícia? Talvez por conta do suicídio. Ficou preocupado com o que escreveriam no obituário. Seus filhos sempre foram muito ruins de língua portuguesa. Ficou com medo. Pegou um papel e pensou em deixar por escrito o que deveria estar escrito. E a lápide? Seria enterrado no túmulo da família, mas não pensou o que estaria escrito.
“Não!” Balançou a cabeça e afastou os pensamentos controladores. Estava deixando a vida e isso tudo não importava mais. Nem testamento deixaria. Não tinha muita coisa. Apenas aquela casa e os livros. Tantos que agora ele não conseguia escolher um para ler antes de morrer.
Bell Gama
abril/2009
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1.
Cadu | 27/04/2009 at 9:11 PM
Eu gostei muito, Bell. Ainda mais porque vai bem ao encontro do que imaginava: um suicida daria uma vida para ver a repercussão do seu ato no resto do mundo. E certamente morreria se soubesse que não alterou em um centésimo a rotina do universo. Sorte que ao menos se preocupou em ler um bom livro…rs.
Bjos
2.
Antonio Carlos | 28/04/2009 at 7:24 PM
Bell, como você diz a respeito de alguns dos meus posts, lindo, lindo, lindo! Há realmente muitas coincidências entre o que você e eu escrevemos ultimamente. Talvez sem intenção e sem consciência estejamos nos influenciando mutuamente, ou então dialogando por meio do que escrevemos.
Manuel Bandeira, que em razão da sua tísica convivia com a morte e era obsecado por ela, tem vários poemas em que trata da “indesejada das gentes”. Um deles, “A Morte Absoluta”, valeria a pena você conhecer (se ainda não conhece:
”Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
Sem deixar sequer esse nome.”
Mas o que mais gostei é o seu personagem não se matar por não conseguir escolher o último livro para ler ou reler. Só os livros nos salvam!
Ti doro sempre.
Antonio Carlos