Do meu melhor amigo, para mim…
27/05/2009
Tem coisas que são particulares. Outras públicas. Tenho uma dificuldade imensa de reconhecer a diferença entre uma e outra. Mas ao receber por e-mail o texto do meu melhor amigo, Vinícius Caligares, em retribuição ao post anterior (leia), não tenho como deixar de postá-lo aqui.
O amor deve ser público para que sirva de inspiração.
Para a minha melhor amiga, Isabella Gama
Quase tudo em nossa vida não acontece por acaso. Tem um propósito. E se insistir em faltar um, ainda restará mistério. O propósito ainda está por vir.
Insisto em que tudo tem uma razão de ser. Há quem teorize sobre o bater de asas de uma simples borboleta poder influenciar o curso natural das coisas e que, talvez isso, possa provocar um tufão do outro lado do mundo. Ou sobre Cisnes Negros e suas características de raridade, impacto extremo e previsibilidade retrospectiva. Tem até lei a muito tempo guardada em segredo que revela a força poderosa do Universo. Prefiro uma mais simples que aprendi com a Júlia: Freud explica?
Desde a menina que catava lixo e virou modelo até o menino que jogava bola num campinho de várzea que se tornou, por mais de uma vez, o melhor do mundo. Imaginar que colaborar despretensiosamente com um curta-metragem poderia mudar o trabalho, a cidade em que mora, enfim, a vida de alguém. Este mesmo curta iria reafirmar a mais pura e sincera amizade entre dois velhos amigos. Como é possível que um segundo antes ou depois as coisas acontecem com a gente que nos dá a oportunidade daquilo que passa a ser o resto-todo de nossas vidas.
Nos conhecemos crianças. Eu te admirava, mesmo ficando de fora dos convites para ir ao cinema. Segui meu caminho, sem perder o seu de vista. No colégio, você foi Santa Maria. O máximo que cheguei foi a irmão de Jesus. Difícil mesmo foi saber que você já tinha um melhor amigo. Mas tinha certeza que eu era melhor do que ele. Até sua empregada sabia disso. Você ainda não. Ainda a admirava. E em nossos momentos de alegria, fiz de tudo – encarar ciúmes de mãe, inclusive – até você perceber que seria impossível que eles fossem completos sem que eu estivesse ao seu lado.
Estudávamos juntos. Português, Literatura e História sempre tirou de letra. Matemática, Física e Química precisava de ajuda. Eu agradecia. Eram intermináveis exercício. Intermináveis pra você. Eu tinha o prazer de passarmos mais tempos juntos. E juntos andamos de mobilete – e que de tanto ser vista estacionada na sua garagem, nos foi roubada; fomos ao campo de futebol em dia de clássico; assistimos a seu primeiro acidente automobilístico – sim, eu estava junto; andamos de Comodoro e de Landau.
E a vida encarregou de nos separar. Chorei quando não passei no vestibular pra ir pra São Paulo. A separação era inevitável. Nunca perdemos o contato. Ora mais próximo, ora mais distante. Mas o elo sempre existiu. Outra vez, seguíamos caminhos diferente. E mais uma vez, eu sem perder o seu de vista. Você foi brilhante na faculdade. O máximo que cheguei foi graduar-me sem nenhuma DP. Fez novos melhores amigos. Mais maduro, ficava feliz por eles te fazerem bem, mas sempre tive comigo a certeza que eu era melhor do que eles. Eu e a sua empregada. Te admirava ainda mais. O que me doía era o fato de eu não ser completo pra você. Ainda não havia me entregado. Não era inteiro.
E não aconteceu por acaso. Eu estava em férias. Meu primo me avisa sobre o lançamento do seu curta – ainda não havia lido o email do convite da estréia. Me esforço para estar em São Paulo para poder celebrar mais esta conquista sua. E mais uma vez, vou para te prestigiar, mas não inteiro. O curta foi um catalisador. No outro dia, chego na sua casa mesmo sabendo que era hora de você estar no trabalho. Te pego de assalto. Me pego de assalto.
Amadurecemos juntos. Quem me ensinava agora era você. A diferença é que desta vez eu não podia recorrer aos livros. Tinha que ser com você. E mais uma vez, eu agradeci. Foi como se você achasse minha caixinha de brinquedos e me entregasse. Enfim, estava completo. Era inteiro pra você. Novamente, passamos muito tempo juntos. E junto jantamos, fomos a livraria, deliramos, assistimos ao Fiel juntos, fomos a outra estréia e até retornamos pra nossa cidade natal juntos.
E se lá se vão 20 anos, outros mais hão de existir. Não por um acaso, eu não existo sem você. Sei que ainda haverá muitos desencontros, mas com a certeza de que em cada reencontro, sairemos melhor do que entramos. Hoje aprendo muito mais do que ensino.
Se nos encontramos por acaso, feito um acaso nos reencontramos com o propósito de nos redescobrirmos. E se acaso sem propósito nos desencontrarmos, restará o mistério do propósito que estará por vir.
Obrigado por você existir na minha vida. E tenha certeza que continuo a querer que você exista.
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1.
Sonia Kahawach | 27/05/2009 at 8:15 PM
Uma das mais lindas declarações de amor que já li.
E o amor se mostra de mil formas e a cada vez que surge, qualquer que seja o motivo ou os protagonistas, sempre se renova e é sempre o primeiro e o último.
Beijos a esses amigos tão lindos.
2.
Antonio Carlos | 28/05/2009 at 1:54 AM
Silvio Santos (um dos ídolos da Bell, óu pelo menos foi) perguntaria:
“É amor ou amizade?”
Eu respondo com outra pergunta:
“Qual a diferença?”
Vocês se merecem!
3.
CAROL GAMA | 28/05/2009 at 4:42 PM
Liiiiiiiindo, estou aqui, com lágrimas nos olhos…vc dois são demais
4.
Natália | 29/05/2009 at 8:11 PM
Acho que nem preciso dizer o quanto foi lindaaaaaaaa essa declaração Bell, quero um amigo desses, amizades verdadeiras como essa descrita acima são quase impossíveis.
Parabéns por ter um amigo tão querido!
beijos, amei seu blog