Archive for Agosto, 2009

Procura-se

Ela não era uma. Ela era muitas. Todas as mulheres são muitas, são várias, são tantas que ás vezes até se perdem de quem realmente são. Mas ela se perdia para se encontrar.

Aos treze anos conheceu seu primeiro namorado. Rodrigo era recém chegado na escola. Feio, bem feio. Ninguém sabia direito a história dele. Ele falava pouco. Tinha uma feição fechada. Logo começaram os rumores. Ele era repetente e havia sido expulso da escola anterior. Ninguém queria ser amigo do mau elemento. Movida por um espírito maternal ela quis. Foi seu primeiro beijo. Escondido, na saída da escola com gosto de cuspe. Coração na boca e ela se apaixonou. Assumiu o namoro e em poucos dias passou de representante de sala para a habituée da sala da diretora. Revoltou-se. Um dia, se trancou no banheiro, fez um rabo de cavalo e cortou seus virgens cabelos compridos cultivados desde a infância na altura do queixo. A mãe, quando a viu na cozinha de cabelos curtos tomou um susto. Ela simplesmente pegou um copo de água e voltou para o quarto. Tinha se transformado numa pré-adolescente revoltada.

Aos quatorze anos conheceu Francisco. Caipira de uma cidade ainda menor do que a dela, tinha um erre puxaaaaado. Ela achava meio cafona, mas também achava bonitinho. Ele não era o mais lindo da cidade, mas tinha uma bela caminhonete e ficava a noite inteira andando pra cima e pra baixo na rua principal da cidade. Ela ficava sentada na observando o vai e vem. Um dia ele finalmente parou esse trajeto de carrossel e começou a conversar com ela. Como ele, tornou-se tímida. Foi uma noite inteira de papo que terminou com uma serenata que ela não ouviu. Na época, era moda parar a caminhonete na janela da garota e colocar o som na última altura. Ela, que sempre teve sono pesado, achou que estava sonhando. Nunca tinha ouvido uma serenata, ainda mais de música sertaneja. Aos poucos virou uma autêntica peoa de rodeio.

Aos dezessete mudou de escola. Guilherme Abulquerque Alcântara estudava na sua sala. Filho de um conhecido empresário da cidade, fazia questão de mostrar através de suas roupas importadas o quanto de dinheiro tinha. No começo ela o achava um metido. Mal conversava com ele. Inclusive, ele até a desprezava. Na formatura foram para Cancun. Para ele, era mais uma viagem internacional. Para ela, a primeira vez que andava de avião. Para ele, a viagem foi paga a vista. Ela só conseguiu ir porque o dólar estava ainda um para um. Naquela praia artificial, tombados de tequila ficaram pela primeira vez. Ela gostou da coisa. Gostou de desfrutar o amor no mar caribenho. Passou a andar com cartão de crédito em punho. Parou no free shop, gastou todo o seu dinheiro e chegou em casa patricinha.

Aos dezenove passou na faculdade. Achava que já se conhecia. Havia escolhido o curso de jornalismo e encarava os namorados como uma verdadeira pesquisa de campo. Foi surpreendida por Rafael, nem feio, nem bonito. Usava óculos e tinha barba raspada. Perto dos outros namorados, parecia homem. Inteligente. Ela disputava com ele as melhores notas. Por amor platônico trocou a turma do fundão pelas primeiras carteiras. Os trabalhos em grupo renderam belas transas. Comprou um óculos de grau. Formou-se como oradora da turma.

Passou dos vinte. Foi roqueira. Foi surfista. Foi DJ. Foi atleta. Foi hippie. Foi skatista. Foi culturete. Foi. Foi. Foi. Até hoje ela está se procurando.

Por Bell Gama

(agosto/2009)

4 comments 12/08/2009

Branco

Quando escrever é seu ofício, escrever por prazer torna-se muitas vezes um peso. Alberto Manguel, que sabe muito o que diz, fala que não existe como escrever por hobby. Infelizmente, escrever coisas que acredito ou que gosto é o meu hobby e por isso não me intitulo escritora. Meu trabalho é outro. Consiste em escrever análises de carros, interpretar números estatísticos da indústria, criar pautas para um site, um jornal e um programa de televisão, no qual também sou apresentadora. Sim, são muitos afazeres. Muitos que fiz questão de acumular por ser workaholic e um “pouquinho” controladora. Mas não estou aqui para reclamar do quanto de trabalho tenho tido nos últimos tempos com os lançamentos que realizamos aqui na empresa.

“Estou muito ocupada” é um clichê que não gosto muito. Não gosto de ouvir nem de falar. A não ser para despistar algumas coisas que não gosto muito de fazer. Sim, sou muito ocupada, mas isso nunca foi desculpa para mim. Sempre consegui de maneira frenética encaixar as coisas do trabalho com pequenos prazeres particulares, como escrever.

No entanto, o que me torna ausente aqui, nesse blog, é um momento de extrema falta de inspiração (ou para os intelectualóides, de “reflexão”). Tenho lido muito, o que sempre me ajudou. No entanto, acho que tenho lido excessivamente e vivido pouco. Minha inspiração também sempre veio das histórias que eu vivia ou que eu observava. Hoje acho que quanto mais leio e menos vivo. Quanto mais leio, vejo como tem gente interessante escrevendo. E é neste ponto que o bicho pega! Você começa a repensar no que escreve e chega a seguinte conclusão: “como eu tenho coragem de postar alguma coisa nesse blog?”.

Nunca me importei em me expor. Não sou, nunca fui e infelizmente acredito que jamais serei uma pessoa reservada. Nunca havia tido esse pavor de me expor. Dizem que quando somos jovens, somos mais corajosos e que quando mais velhos, não nos importamos mais. Acho que estou no meio termo. A beira dos trinta anos, virei menos corajosa do que era e ainda não tenho maturidade o suficiente para “não estar nem aí”. Fora a minha idade, acho que a exposição que vivenciei como filme “De assalto”, foi muito forte. Acredito que vivo  um recolhimento intuitivo. Hoje consigo ver o quanto foi emocionalmente difícil ter feito tudo aquilo. Mais difícil ainda foi expor um filme numa tela gigantesca que parece que te sufoca com os seus defeitos, suas decisões… A vontade que dá é sumir, refazer. Por isso, também não me intitulo cineasta.

Enfim, não sei porque estou escrevendo tudo isso aqui. Nunca quis transformar esse blog num relato pessoal. Acho muito prepotente pensar que tem pessoas querendo saber o que faço da minha vida. No entanto, ao entrar por dias seguidos aqui e não conseguir postar nada, absolutamente nada, me deixa triste.

Por isso, prefiro não deixar essas páginas em branco.

Por Bell Gama (agosto/2009)

5 comments 03/08/2009


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