Curta metragem “De assalto” no jornal “A cidade”
Mais uma vez, faço uma pausa neste blog para falar do curta-metragem “De assalto”.
Está marcada a estréia para o dia 22/06 a partir das 19h00 no Cine clube Cauim.
Realizarei um sonho. O Cauim foi o primeiro cinema que fui na minha vida. Ele ficava ao lado da casa da minha saudosa avó Norma. Tenho excelentes lembranças de me entupir de bala Chita enquanto assistia o Indiana Jones com meu pai. O Cauim completa neste ano trinta anos, assim como eu.
Por isso, faço questão de convidar todos para a estréia ribeirão pretana. Contará não só com a exibição do filme mas a execução de músicas do filme com Francis Wiermann, Márcio Bá e Palhas e Pulhas.
Hoje, o filme saiu em uma bela reportagem no jornal “A Cidade”. Para ler, acesse:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/81459/luz-camera-assalto.html
Nesta semana, também saiu em uma reportagem feita com a atriz Karina Gianecchinni na revista Revide.
Obrigada a todos!

5 comments 10/06/2009
A bela e o Narciso, por Bell Gama
“Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar”
Dorival Caymmi
Ela era linda e não sabia. Não tinha a menor idéia. Ás vezes se sentia um pouco sexy. Ás vezes se sentia um pouco desleixada. Mas, na maioria das vezes não se sentia lá muitas coisas.
Houve uma época em que ela se sentiu bem. Há muito tempo atrás. Tempo que ela recorda com carinho, mas que já passou. Depois desse tempo, veio um tempo ruim, um tempo meio triste daqueles em que se fica sozinha sem saber por quê. Depois desse tempo todo, veio o tempo dele.
Era ele quem fazia ela se sentir assim. Meio feia, meio mal amada, meio sem saber o que sentir. No começo, quando ele deu bola pra ela, ela se sentiu linda. Mas no dia seguinte, quando ele foi embora, ela já passou a se sentir feia.
Ele era feio! Bem feio. Daqueles meio jambresguéticos, de cabelo desgrenhado, de calça furada e chinelo de dedo. Ele sim era o feio. Mas se achava lindo, tão lindo que a convenceu da beleza que não tinha. Também não era belo por dentro, mas fingia ser. Fingia ser poeta, fingia ser músico, fingia até ser amigo. Mas não era.
Ela ficou míope, só enxergava a beleza dele.
Ele era míope, não enxergava a beleza dela.
Os dias foram passando e ela tentava ficar cada vez mais bonita para ele. Pra chamar a atenção, ela passou a se maquiar. Muito. Batom vermelho, cílios postiços, delineador nos olhos e até uma falsa pinta colocou em cima da boca! Não precisava. Ela era bonita assim, de cara lavada de quem sai do banho. De cabelo molhado jogado na cara. De calcinha bege.
Ele não enxergava. Narciso, o espelho era todo dele.
Por Bell Gama
junho/2009
5 comments 01/06/2009
Do meu melhor amigo, para mim…
Tem coisas que são particulares. Outras públicas. Tenho uma dificuldade imensa de reconhecer a diferença entre uma e outra. Mas ao receber por e-mail o texto do meu melhor amigo, Vinícius Caligares, em retribuição ao post anterior (leia), não tenho como deixar de postá-lo aqui.
O amor deve ser público para que sirva de inspiração.
Para a minha melhor amiga, Isabella Gama
Quase tudo em nossa vida não acontece por acaso. Tem um propósito. E se insistir em faltar um, ainda restará mistério. O propósito ainda está por vir.
Insisto em que tudo tem uma razão de ser. Há quem teorize sobre o bater de asas de uma simples borboleta poder influenciar o curso natural das coisas e que, talvez isso, possa provocar um tufão do outro lado do mundo. Ou sobre Cisnes Negros e suas características de raridade, impacto extremo e previsibilidade retrospectiva. Tem até lei a muito tempo guardada em segredo que revela a força poderosa do Universo. Prefiro uma mais simples que aprendi com a Júlia: Freud explica?
Desde a menina que catava lixo e virou modelo até o menino que jogava bola num campinho de várzea que se tornou, por mais de uma vez, o melhor do mundo. Imaginar que colaborar despretensiosamente com um curta-metragem poderia mudar o trabalho, a cidade em que mora, enfim, a vida de alguém. Este mesmo curta iria reafirmar a mais pura e sincera amizade entre dois velhos amigos. Como é possível que um segundo antes ou depois as coisas acontecem com a gente que nos dá a oportunidade daquilo que passa a ser o resto-todo de nossas vidas.
Nos conhecemos crianças. Eu te admirava, mesmo ficando de fora dos convites para ir ao cinema. Segui meu caminho, sem perder o seu de vista. No colégio, você foi Santa Maria. O máximo que cheguei foi a irmão de Jesus. Difícil mesmo foi saber que você já tinha um melhor amigo. Mas tinha certeza que eu era melhor do que ele. Até sua empregada sabia disso. Você ainda não. Ainda a admirava. E em nossos momentos de alegria, fiz de tudo – encarar ciúmes de mãe, inclusive – até você perceber que seria impossível que eles fossem completos sem que eu estivesse ao seu lado.
Estudávamos juntos. Português, Literatura e História sempre tirou de letra. Matemática, Física e Química precisava de ajuda. Eu agradecia. Eram intermináveis exercício. Intermináveis pra você. Eu tinha o prazer de passarmos mais tempos juntos. E juntos andamos de mobilete – e que de tanto ser vista estacionada na sua garagem, nos foi roubada; fomos ao campo de futebol em dia de clássico; assistimos a seu primeiro acidente automobilístico – sim, eu estava junto; andamos de Comodoro e de Landau.
E a vida encarregou de nos separar. Chorei quando não passei no vestibular pra ir pra São Paulo. A separação era inevitável. Nunca perdemos o contato. Ora mais próximo, ora mais distante. Mas o elo sempre existiu. Outra vez, seguíamos caminhos diferente. E mais uma vez, eu sem perder o seu de vista. Você foi brilhante na faculdade. O máximo que cheguei foi graduar-me sem nenhuma DP. Fez novos melhores amigos. Mais maduro, ficava feliz por eles te fazerem bem, mas sempre tive comigo a certeza que eu era melhor do que eles. Eu e a sua empregada. Te admirava ainda mais. O que me doía era o fato de eu não ser completo pra você. Ainda não havia me entregado. Não era inteiro.
E não aconteceu por acaso. Eu estava em férias. Meu primo me avisa sobre o lançamento do seu curta – ainda não havia lido o email do convite da estréia. Me esforço para estar em São Paulo para poder celebrar mais esta conquista sua. E mais uma vez, vou para te prestigiar, mas não inteiro. O curta foi um catalisador. No outro dia, chego na sua casa mesmo sabendo que era hora de você estar no trabalho. Te pego de assalto. Me pego de assalto.
Amadurecemos juntos. Quem me ensinava agora era você. A diferença é que desta vez eu não podia recorrer aos livros. Tinha que ser com você. E mais uma vez, eu agradeci. Foi como se você achasse minha caixinha de brinquedos e me entregasse. Enfim, estava completo. Era inteiro pra você. Novamente, passamos muito tempo juntos. E junto jantamos, fomos a livraria, deliramos, assistimos ao Fiel juntos, fomos a outra estréia e até retornamos pra nossa cidade natal juntos.
E se lá se vão 20 anos, outros mais hão de existir. Não por um acaso, eu não existo sem você. Sei que ainda haverá muitos desencontros, mas com a certeza de que em cada reencontro, sairemos melhor do que entramos. Hoje aprendo muito mais do que ensino.
Se nos encontramos por acaso, feito um acaso nos reencontramos com o propósito de nos redescobrirmos. E se acaso sem propósito nos desencontrarmos, restará o mistério do propósito que estará por vir.
Obrigado por você existir na minha vida. E tenha certeza que continuo a querer que você exista.
4 comments 27/05/2009
Para o meu melhor amigo, Vinícius Caligares

Todo mundo na vida merece ter um melhor amigo. Mas melhor amigo mesmo, daqueles que você conhece na infância e que te acompanha até o fim da vida.
Pelo que vejo, antes as coisas eram mais fáceis. Nascia-se em um lugar e aí você convivia até morrer com aquelas pessoas. Algumas delas se tornavam amigas, outras vizinhas, outras inimigas e ali mesmo você encontrava seus amores. Hoje não. Muitas vezes você nasce num lugar e nunca mais volta pra lá. Outras, nasce, vive e a própria vida vai se encaminhando em fazer escolhas pra você. No meio de tantas variantes, muitas pessoas queridas vão ficando pelo caminho.
Nos dias de hoje, a questão da amizade parece estar sob a teoria de Darwin: só os mais fortes sobrevivem. Vira-se amigo, por pura escolha. Não depende da cidade, do país, da idade, do sexo, de nada. Para ser amigo hoje, é preciso ter um coração forte e uma vontade louca de estar em comunhão com o outro.
Sempre fomos assim. Você e eu. Desde pequenos. Sempre optamos por ficar juntos. Desde quando você quis ir assistir Batman 2 comigo no Cine Comodoro. Você sempre quis estar ao meu lado. Depois que vi que era impossível ter um momento de alegria completo sem você, passei a querer ficar compulsivamente ao seu lado. Nossas mães reclamavam: “você não sai de lá, menino!” ou “volta pra casa, menina!”
Estudamos juntos. Crescemos correndo corredores do colégio. Apressados, fumamos o primeiro cigarro. Alegres, tomamos o primeiro porre. Desiludidos, chorarmos por amores platônicos. E lá nos formamos.
Fizemos diferentes escolhas. Passamos em faculdades diferentes. Mudamos de cidade. Fomos mudando muito. Fisicamente, mentalmente, os gostos, os amores, a rotina. Mudamos quase que por completo. Só não mudamos uma coisa: nossa amizade.
Lá se foram 20 anos. Vivi mais que o dobro da minha vida contando com a tua onipresença. Sei mais quem eu sou com você. Na verdade, antes de você, nem existia direito eu. E muitas vezes foi no nosso reencontro que me redescobri. Como hoje.
Obrigada por você existir na minha vida.
3 comments 26/05/2009
Novo sotaque
Aprendi francês pra falar bem bonito o meu amor pra você.
Cansei de ser mal interpretada em outras línguas…
Por Bell Gama
maio/2009
4 comments 25/05/2009
Estréia curta-metragem “De assalto”
Estou ausente do blog por um bom motivo: a finalização do curta-metragem iniciado aqui. Por isso, faço questão de publicar o cartaz da estréia e estender o convite para quem quer que aqui entre.
Obrigada a todos!

Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=moRFNOEyQPI
Créditos:
Elenco (ordem alfabética)
Bell Gama
Cristiano Costa
Fausto Ribeiro
Gabriel Galhardo
John Ferriolli
Karina Gianecchinni
Laura Farled
Leo Santarosa
Luara Donegá
Lucas Santarosa
Monalisa Machado
Murilo Inforsato
Neto Donegá
Poliana Savegnago
Equipe:
Preparação de atores:
Fausto Ribeiro e Murilo Inforsato
Produção Musical e Sound design:
Francis Wiermann e Márcio Bá
Músicas cedidas:
“Boa Noite” – Djavan
“Tela Azul” – Palhas e Pulhas
“O céu” – Guilherme Varella, Marina Chierini, Henrique Varella, João Pedro Tonini, Fábio Lacaz e Gustavo Baralho
“O assalto” e “Rolanujaizz” - Francis Wiermann e Márcio Bá
Figurino:
Anna Casanova e Gabriel Galhardo
Locações:
Joe Beer
Evohé
Direção de fotografia:
Aelson Pereira
Áudio:
Fábio Cidrão
Assistente:
Rafael Nalesso
Still:
Francis Wiermann, e Robson Ricatieri
Divulgação:
Fernanda Paulino, Rodrigo Placeres e Priscila Prinet
Produção:
André Moraes e Laura Farled
Montagem e Finalização:
Robson Ricatieri
Roteiro e Direção:
Bell Gama
Agradecimentos (ordem alfabética):
Adilson Ramos
Andrei Furlan
Ângelo Tapias
Antonio Carlos Augusto Gama
Cadu Ramos
Carolina Moreira Gama
Célia Regina Strauss
Cotonete
Djavan
Eduardo Natrielli Ribeiro dos Santos
Enio Porfirio Soares
Fábio Lacaz
Gill Dantas
Guilherme Varella
Gustavo Baralho
Grupo Teatral Engasga Gato
João Pedro Tonini
Júlia Moreira Gama
Marcel Gomes
Maria Delucena Moreira Gama
Marina Engracia de Moraes
Marina Chierini
Maú Pereira
Michel Pastorelli
Miriam Jacob
Priscila Prinet
Regina Curio
Ricardo Ortiz
Rodrigo Mora
Sérgio Lima Gabionetta
Suzete Sueli Sabbag de Bortoli
Taís Egea Marin Guerreiro
Tia Palmira
Virginia Vidal
Zibaldoni
Apoio (logos):
Matel.Doc
Sleep inn
Confort inn
HDV Loc
Soulfree
2 comments 15/05/2009
Fora do gancho, por Bell Gama
Hoje é aquele dia típico que você me ligaria.
Dia ruim, conturbado, cheio de afazeres e poucos prazeres.
Dia que vira noite e não percebo, a não ser pelas bitucas acumuladas no meu cinzeiro.
Dia de tédio, que fico no sofá, inerte diante da TV, tentando desligar minha cabeça do mundo.
Dia em que me sinto sufocada, que me dá insônia, que o tic e tac do relógio irrita.
Dia em que penso na vida, em mudar de vida, na morte e em cutucá-la de perto.
Dia em que escrevo mil coisas que não fazem o menor sentido.
Dia em que fico ao lado do telefone esperando tocar.
Bell Gama Abril/2009
6 comments 30/04/2009
O último livro, por Bell Gama
Pensava em se matar há muitos anos. Havia decidido sucidar-se ainda jovem. Queria morrer belo. Decidiu deixar descendentes. Não concordava com Brás Cubas. Ao ter filhos, seus planos se atrasaram. Não teve coragem para deixa-los órfãos e traumatizados. Mas agora estava velho e finalmente realizaria o seu sonho: a morte por opção e não como destino.
Já tinha pensado tantas vezes nesse momento que se programou para estar bem vestido: de terno e chapéu panamá. Queria que fosse no fim do dia para que o velório fosse curto, duraria apenas algumas horas da noite. Não atrapalharia ninguém. Era segunda-feira.
Almoçou dobradinha e se encheu de torresmo. Riu alto do seu colesterol alto. Banho tomado, barba feita e contas pagas. Morava sozinho e ninguém veria. Não queria uma morte violenta. Morava em uma bela casa e jamais pensou em jogar-se de um prédio ou de qualquer viaduto. Era tímido. Tinha medo de armas de fogo e sangue. Não queria colocar a vida de mais ninguém em risco.
Foi um bom pai, ás vezes um bom marido. Levantou-se da cadeira de balanço que havia ganhado no último dia dos pais. Foi até a estante. Eram duas horas da tarde. Lembrou que Bentinho também quis ler um livro antes da sua tentativa de suicídio. Adorava Machado de Assis, mas achou inapropriado para a ocasião. O danado era vivo demais e podia afastar os seus planos.
Olhou a estante recheada de títulos e pensou na vida. Pensou sobre o livro que nunca escreveu. Pensou na sua própria biografia. Nunca conseguiu encontrar um título. Qual seria a capa? Olhou para o espelho e viu que aparentava ser mais velho do que estava. Imaginou que sua biografia não daria um “best seller” e que talvez ficasse encostada e empoeirada em um sebo.
Tentou adivinhar o que escreveriam sobre sua morte no jornal. Viraria notícia? Talvez por conta do suicídio. Ficou preocupado com o que escreveriam no obituário. Seus filhos sempre foram muito ruins de língua portuguesa. Ficou com medo. Pegou um papel e pensou em deixar por escrito o que deveria estar escrito. E a lápide? Seria enterrado no túmulo da família, mas não pensou o que estaria escrito.
“Não!” Balançou a cabeça e afastou os pensamentos controladores. Estava deixando a vida e isso tudo não importava mais. Nem testamento deixaria. Não tinha muita coisa. Apenas aquela casa e os livros. Tantos que agora ele não conseguia escolher um para ler antes de morrer.
Bell Gama
abril/2009
2 comments 27/04/2009
Desperta a dor, por Bell Gama
Desperta a dor, Por Bell Gama
De repente ela ficou surda. Como se seus tímpanos tivessem estourado de tanto ouvir lamúrias. Não ouvia mais música. Não ouvia nem um pio. Não ouvia mais nada.
Pensou na voz rouca do seu pai. Lembrou-se que não precisaria mais ouvir broncas. Lembrou-se dos gritos de sua mãe durante a adolescência. Há tempos não ouvia mais aqueles gritos. Desde que decidiu morar sozinha a quietude passou a ser opcional. Era uma condição saboreada aos fins de semana, de pijama, andando prá lá e prá cá, sozinha no seu apartamento.
Não ouvia mais a voz fraquinha e doce da sua avó. Mal se lembrava da voz com sotaque carregado do seu avô. Sentia falta de algumas coisas, mas nunca falava.
Não ouviria mais reclamações do chefe. Sorriu ao pensar que pudesse ser afastada por motivos de saúde. Como poderia manter-se no emprego sem ouvir? Pensou em férias permanentes e remuneradas. Em um lugar quente e cheio de sol. Não precisaria nem levar o Ipod.
Olhou para o seu telefone. Já não tocava há um tempo. Nem se importou. Sabia que desta vez, mesmo que ele ligasse ela não ouviria. Melhor assim. Nem passaria pela angustiante espera do toque do telefone.
Imaginou a velhice. Sabia que um dia ficaria surda. Sempre soube. Velhinhos quase sempre acabam surdos e não teria que gastar dinheiro em um aparelho. Sua velhice sonora fora antecipada. Realmente estava se sentindo bastante idosa nos últimos dias.
Pensou na morte. Não ouviria o som do seu filho. Nem o primeiro choro nem, o balbuciar das primeiras palavras.
Num impulso, abriu os olhos. O despertador tocava.
Por Bell Gama
Abril/2009
2 comments 24/04/2009
Para quem esteve sempre tão longe e tão perto
Para quem esteve sempre tão longe e tão perto,
Hoje passei na frente da nossa faculdade e lembrei de você. Lembrei do meu trote. Lembrei que depois do meu trote a gente tomou cerveja. Lembrei que você deixou um bilhete no meu fichário numa folha amarela. Nele dizia que você se lembrava de mim de uma festa em Ribeirão Preto e me deixava beijos na boca. Lembrei que eu não lembrava de você. Mas lembro que achei esse beijo meio atrevido. Lembrei que depois lembrei de você e rimos disso. Lembrei que isso virou assunto por um bom tempo entre nós dois. Até que nós saímos. Lembrei que namorei um tal de “Provolone” que eu odiava. Não lembro porque namorei ele. Mas, lembrei que mesmo assim você quis ficar comigo. Lembrei que duvidava de você e te achava um cafajeste. Lembro que você me disse: “como você quer que eu te peça em namoro sem eu te beijar?” Lembrei que eu era uma boba e protelei o beijo por um tempo. Lembrei que depois eu cedi. Lembrei que quando cedi você já estava em outra, com outras e me tratou mal. Lembrei que neste dia era seu aniversário, eu estava meio apaixonada e fui até Americana, na sua chácara, com a roupa no corpo, só para ficar contigo. Mas lembrei que você estava tão bêbado e nem se importou. Lembrei também que achei que mesmo assim valia a pena. Lembro que valeu. Lembrei que a gente saiu de novo. Lembro que tinha um pôster do Mel Gibson na porta do armário do seu flat. Lembrei que achei isso meio estranho. Lembrei que era dia das mulheres, eu estava voltando para casa de manhã no seu carro, um VW Golf, e que fez questão de não me dar parabéns só para me irritar. Lembrei que assistimos o Oscar e que você se jogou no chão do meu apartamento de felicidade. Lembrei que achava tudo aquilo tão autêntico, que você me ensinava tudo sobre cinema e que sonhava com um mundo muito maior. Lembrei que sempre soube que um dia você sairia fora, que aqui tudo era pequeno demais para você. Lembrei que você achava que eu parecia a Kate Winslet. Lembrei que eu nunca tinha achado ela bonita. Lembrei que naquele ano Titanic levou todos os Oscar. Lembrei quando nos distanciamos. Lembrei quando você se foi. Lembrei que me arrependi por tanta coisa que não disse e por tanta coisa que achava que você sabia. Lembrei da falta que você fazia. Lembrei do orgulho que senti ao ler notícias suas. Lembrei quando você voltou ao Brasil e foi me visitar. Lembrei que estava loiro, magro, não bebia mais e tinha tatuagem. Lembrei que faz tanto tempo tudo isso e que você estava tão diferente. Lembrei que mesmo assim achei que gente iria ficar. Lembrei que a gente não ficou. Lembrei que com exceção das idéias e dos desejos a gente nunca esteve no mesmo tempo e lugar. Lembrei que mesmo assim, com tudo sempre soprando ao contrário, eu sempre gostei de você. Lembrei que sempre achei que você foi um dos meus melhores amigos, uma das pessoas mais especiais que eu já encontrei. Lembrei de tanta coisa. Lembrei, inclusive, que eu nunca quero te esquecer.
Bell Gama / março 2009
5 comments 23/04/2009