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20mg
Comprava felicidade na farmácia em forma de comprimido.
“Não se preocupe, ela não vicia”
argumentava a médica.
“Você não precisa de remédio algum”
diziam seus colegas.
“Divide comigo a cartela?”
pedia a melhor amiga.
“Ih…Já tomou seu remédio hoje?”
questionava cotidianamente o seu namorado.
“Realmente você precisa disso?”
duvidavam os amigos.
“Apenas duas pílulas de fluoxetina bastam”
tentava se convencer incessantemente.
Não sentia se sentia o efeito.
Nem sabia mais porque tomava.
Fazia tanto tempo.
Na dúvida do tomanãotoma e quemeudevoouvir, decidiu parar.
Parou tudo.
Descobriu que nunca antes havia parado um segundo sequer.
Passou a se perguntar sobre o preço das amostras grátis.
Por Bell Gama
outubro/2009
4 comments 14/10/2009
Tudo o que vocês precisam saber

Vocês ainda nem nasceram e eu já estou aqui, escrevendo para vocês. Na verdade, eu ainda nem sei se vocês existem, mas mesmo assim já estou aqui. É medo. Não, não tenho medo de vocês. Tenho medo do que me tornarei. Li recentemente dois livros que me marcaram muito. Um autor que escrevia um livro após a morte do seu pai e outra que escrevia para que seu pai a conhecesse antes de morrer. Não quero escrever algo mórbido. Quero aproveitar enquanto há vida. Por isso, decidi escrever.
Dizem que quando a gente é mãe se transforma na mãe da gente. Engraçado. Quando a gente é adolescente o que justamente a gente não quer é ser a mãe da gente. Não, Elis, não quero ser como os nossos pais. Não que eles tenham feito algo de mal para mim, pelo contrário, foram excelentes! Mas quero cumprir minha promessa adolescente: farei algumas coisas do meu jeito. (Ai que medo!)
Em primeiro lugar, quero que saibam que eu também já fui como vocês. Eu sei, vocês não acreditam muito nisso, mas eu fui. Fui criança. Aliás, fui muito feliz quando criança e tenho certeza que ajudarei a vocês também serem felizes nessa fase. Adoro brincar e tenho certeza que escutaremos os discos do Toquinho, faremos teatro, brincarei de carrinho e passaremos fins de semana na praia. Prometo não ficar muito nervosa quando você chorarem (juro, vou tentar). Mas vamos tentar nos divertir juntos. Tenho certeza que vocês me surpreenderão.
Sim, a infância é mágica, mas eu sempre quis crescer logo. Não sei se esse sentimento será despertado em vocês. Caso aconteça, lembrem-se de mim: não tenham pressa. Não há nada mais interessante nessa vida. Por favor, vamos ficar juntos durante a adolescência. É sério! É uma fase dificílima e eu a levo a sério. Prometo que entenderei a importância de uma espinha, a vergonha da primeira menstruação e até o desejo de perder a virgindade. Não serei amiguinha de vocês para que não passem vergonha, mas juro não ser careta. Preparem-se. Nessa fase vocês vão chorar muito, achar que a vida acabou, que conheceu sua alma gêmea, que os pais não prestam, que a escola censura, que fugir é o melhor remédio. O que posso prometer é estar preparada para quando vocês quiserem ficar sozinhos e fingirem que eu nem existo.
Lembrem-se disso: a adolescência passa. Aí crescer já não é tão mal. Façam o que quiserem da vida para serem felizes. Na verdade, quase tudo. Não escolham profissões “pré programadas”. Prometo ajudar, mas quero esforço. Se quiserem ser jogador de futebol ou cantora de bolero, eu prometo apoiar, virar tiete e tudo mais. Mas queiram ser algo. Isso é muito importante. Não façam com os outros o que não gostaria que fosse feito para si. Também não sejam ingênuos. Existe sim gente ruim no mundo. Esforcem-se muito que o mérito de alguma maneira vem. Acreditem na sorte, nos amigos e nos pais. É preciso acreditar em algo sempre. Seu tataravô (achei que nunca iria dizer isso) dizia que para se viver é preciso ter dívidas. Isso é importante, tenha motivos, sempre.
Um dia vocês serão iguais a mim, estarão escrevendo cartas para os seus filhos.
Quer dizer, espero que sejam melhores, bem melhores.
Bell/ setembro 2009
PS: Não. Eu não estou grávida. É uma homenagem a duas pessoas muito especiais que estão esperando dois lindos bebês. Não divulgarei os nomes por respeito a elas. Mas quero que saibam que estou muito, muito feliz por vocês. Espero ser a próxima.
6 comments 11/09/2009
Amor inventado

Quando a gente se conheceu pela primeira vez, choveu por quatro dias. Era verão e estávamos na Bahia. Mesmo assim choveu. Foi o tempo necessário. Ficamos trancados no camping ridículo para que a gente assumisse que se amava. Quando a chuva finalmente passou e voltamos pra casa, foram meses ensolarados.

A cada dia, o sol ía ficando mais forte. Ao ponto que um dia não conseguimos mais abrir os olhos. Cego, você terminou comigo. Cega de amor, demorei anos tentando me acostumar com a nova estação.
Passei por fulgazes chuvas de verão, meses ensolarados, invernos sem sair de casa. Aos poucos, o clima foi ficando morno de novo. Até que te conheci de novo.
“Após dias de chuva recorde, SP deve ter mais tempestades”, diz o título do jornal que chegou a minha porta hoje. Foi o maior volume de chuva em um único dia desde 1943, quando ainda nem éramos nascidos. Eu sabia. Depois do nosso reencontro no fim de semana prolongado eu não precisava nem ver a previsão. As trovoadas anunciaram que teria que enfrentar pacientemente uma semana de uma sublime tempestade.
Espero a chuva passar.

Por Bell Gama
setembro/2009
3 comments 09/09/2009
Procura-se
Ela não era uma. Ela era muitas. Todas as mulheres são muitas, são várias, são tantas que ás vezes até se perdem de quem realmente são. Mas ela se perdia para se encontrar.
Aos treze anos conheceu seu primeiro namorado. Rodrigo era recém chegado na escola. Feio, bem feio. Ninguém sabia direito a história dele. Ele falava pouco. Tinha uma feição fechada. Logo começaram os rumores. Ele era repetente e havia sido expulso da escola anterior. Ninguém queria ser amigo do mau elemento. Movida por um espírito maternal ela quis. Foi seu primeiro beijo. Escondido, na saída da escola com gosto de cuspe. Coração na boca e ela se apaixonou. Assumiu o namoro e em poucos dias passou de representante de sala para a habituée da sala da diretora. Revoltou-se. Um dia, se trancou no banheiro, fez um rabo de cavalo e cortou seus virgens cabelos compridos cultivados desde a infância na altura do queixo. A mãe, quando a viu na cozinha de cabelos curtos tomou um susto. Ela simplesmente pegou um copo de água e voltou para o quarto. Tinha se transformado numa pré-adolescente revoltada.
Aos quatorze anos conheceu Francisco. Caipira de uma cidade ainda menor do que a dela, tinha um erre puxaaaaado. Ela achava meio cafona, mas também achava bonitinho. Ele não era o mais lindo da cidade, mas tinha uma bela caminhonete e ficava a noite inteira andando pra cima e pra baixo na rua principal da cidade. Ela ficava sentada na observando o vai e vem. Um dia ele finalmente parou esse trajeto de carrossel e começou a conversar com ela. Como ele, tornou-se tímida. Foi uma noite inteira de papo que terminou com uma serenata que ela não ouviu. Na época, era moda parar a caminhonete na janela da garota e colocar o som na última altura. Ela, que sempre teve sono pesado, achou que estava sonhando. Nunca tinha ouvido uma serenata, ainda mais de música sertaneja. Aos poucos virou uma autêntica peoa de rodeio.
Aos dezessete mudou de escola. Guilherme Abulquerque Alcântara estudava na sua sala. Filho de um conhecido empresário da cidade, fazia questão de mostrar através de suas roupas importadas o quanto de dinheiro tinha. No começo ela o achava um metido. Mal conversava com ele. Inclusive, ele até a desprezava. Na formatura foram para Cancun. Para ele, era mais uma viagem internacional. Para ela, a primeira vez que andava de avião. Para ele, a viagem foi paga a vista. Ela só conseguiu ir porque o dólar estava ainda um para um. Naquela praia artificial, tombados de tequila ficaram pela primeira vez. Ela gostou da coisa. Gostou de desfrutar o amor no mar caribenho. Passou a andar com cartão de crédito em punho. Parou no free shop, gastou todo o seu dinheiro e chegou em casa patricinha.
Aos dezenove passou na faculdade. Achava que já se conhecia. Havia escolhido o curso de jornalismo e encarava os namorados como uma verdadeira pesquisa de campo. Foi surpreendida por Rafael, nem feio, nem bonito. Usava óculos e tinha barba raspada. Perto dos outros namorados, parecia homem. Inteligente. Ela disputava com ele as melhores notas. Por amor platônico trocou a turma do fundão pelas primeiras carteiras. Os trabalhos em grupo renderam belas transas. Comprou um óculos de grau. Formou-se como oradora da turma.
Passou dos vinte. Foi roqueira. Foi surfista. Foi DJ. Foi atleta. Foi hippie. Foi skatista. Foi culturete. Foi. Foi. Foi. Até hoje ela está se procurando.
Por Bell Gama
(agosto/2009)
4 comments 12/08/2009
A bela e o Narciso, por Bell Gama
“Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar”
Dorival Caymmi
Ela era linda e não sabia. Não tinha a menor idéia. Ás vezes se sentia um pouco sexy. Ás vezes se sentia um pouco desleixada. Mas, na maioria das vezes não se sentia lá muitas coisas.
Houve uma época em que ela se sentiu bem. Há muito tempo atrás. Tempo que ela recorda com carinho, mas que já passou. Depois desse tempo, veio um tempo ruim, um tempo meio triste daqueles em que se fica sozinha sem saber por quê. Depois desse tempo todo, veio o tempo dele.
Era ele quem fazia ela se sentir assim. Meio feia, meio mal amada, meio sem saber o que sentir. No começo, quando ele deu bola pra ela, ela se sentiu linda. Mas no dia seguinte, quando ele foi embora, ela já passou a se sentir feia.
Ele era feio! Bem feio. Daqueles meio jambresguéticos, de cabelo desgrenhado, de calça furada e chinelo de dedo. Ele sim era o feio. Mas se achava lindo, tão lindo que a convenceu da beleza que não tinha. Também não era belo por dentro, mas fingia ser. Fingia ser poeta, fingia ser músico, fingia até ser amigo. Mas não era.
Ela ficou míope, só enxergava a beleza dele.
Ele era míope, não enxergava a beleza dela.
Os dias foram passando e ela tentava ficar cada vez mais bonita para ele. Pra chamar a atenção, ela passou a se maquiar. Muito. Batom vermelho, cílios postiços, delineador nos olhos e até uma falsa pinta colocou em cima da boca! Não precisava. Ela era bonita assim, de cara lavada de quem sai do banho. De cabelo molhado jogado na cara. De calcinha bege.
Ele não enxergava. Narciso, o espelho era todo dele.
Por Bell Gama
junho/2009
5 comments 01/06/2009
Fora do gancho, por Bell Gama
Hoje é aquele dia típico que você me ligaria.
Dia ruim, conturbado, cheio de afazeres e poucos prazeres.
Dia que vira noite e não percebo, a não ser pelas bitucas acumuladas no meu cinzeiro.
Dia de tédio, que fico no sofá, inerte diante da TV, tentando desligar minha cabeça do mundo.
Dia em que me sinto sufocada, que me dá insônia, que o tic e tac do relógio irrita.
Dia em que penso na vida, em mudar de vida, na morte e em cutucá-la de perto.
Dia em que escrevo mil coisas que não fazem o menor sentido.
Dia em que fico ao lado do telefone esperando tocar.
Bell Gama Abril/2009
6 comments 30/04/2009
O último livro, por Bell Gama
Pensava em se matar há muitos anos. Havia decidido sucidar-se ainda jovem. Queria morrer belo. Decidiu deixar descendentes. Não concordava com Brás Cubas. Ao ter filhos, seus planos se atrasaram. Não teve coragem para deixa-los órfãos e traumatizados. Mas agora estava velho e finalmente realizaria o seu sonho: a morte por opção e não como destino.
Já tinha pensado tantas vezes nesse momento que se programou para estar bem vestido: de terno e chapéu panamá. Queria que fosse no fim do dia para que o velório fosse curto, duraria apenas algumas horas da noite. Não atrapalharia ninguém. Era segunda-feira.
Almoçou dobradinha e se encheu de torresmo. Riu alto do seu colesterol alto. Banho tomado, barba feita e contas pagas. Morava sozinho e ninguém veria. Não queria uma morte violenta. Morava em uma bela casa e jamais pensou em jogar-se de um prédio ou de qualquer viaduto. Era tímido. Tinha medo de armas de fogo e sangue. Não queria colocar a vida de mais ninguém em risco.
Foi um bom pai, ás vezes um bom marido. Levantou-se da cadeira de balanço que havia ganhado no último dia dos pais. Foi até a estante. Eram duas horas da tarde. Lembrou que Bentinho também quis ler um livro antes da sua tentativa de suicídio. Adorava Machado de Assis, mas achou inapropriado para a ocasião. O danado era vivo demais e podia afastar os seus planos.
Olhou a estante recheada de títulos e pensou na vida. Pensou sobre o livro que nunca escreveu. Pensou na sua própria biografia. Nunca conseguiu encontrar um título. Qual seria a capa? Olhou para o espelho e viu que aparentava ser mais velho do que estava. Imaginou que sua biografia não daria um “best seller” e que talvez ficasse encostada e empoeirada em um sebo.
Tentou adivinhar o que escreveriam sobre sua morte no jornal. Viraria notícia? Talvez por conta do suicídio. Ficou preocupado com o que escreveriam no obituário. Seus filhos sempre foram muito ruins de língua portuguesa. Ficou com medo. Pegou um papel e pensou em deixar por escrito o que deveria estar escrito. E a lápide? Seria enterrado no túmulo da família, mas não pensou o que estaria escrito.
“Não!” Balançou a cabeça e afastou os pensamentos controladores. Estava deixando a vida e isso tudo não importava mais. Nem testamento deixaria. Não tinha muita coisa. Apenas aquela casa e os livros. Tantos que agora ele não conseguia escolher um para ler antes de morrer.
Bell Gama
abril/2009
2 comments 27/04/2009
Desperta a dor, por Bell Gama
Desperta a dor, Por Bell Gama
De repente ela ficou surda. Como se seus tímpanos tivessem estourado de tanto ouvir lamúrias. Não ouvia mais música. Não ouvia nem um pio. Não ouvia mais nada.
Pensou na voz rouca do seu pai. Lembrou-se que não precisaria mais ouvir broncas. Lembrou-se dos gritos de sua mãe durante a adolescência. Há tempos não ouvia mais aqueles gritos. Desde que decidiu morar sozinha a quietude passou a ser opcional. Era uma condição saboreada aos fins de semana, de pijama, andando prá lá e prá cá, sozinha no seu apartamento.
Não ouvia mais a voz fraquinha e doce da sua avó. Mal se lembrava da voz com sotaque carregado do seu avô. Sentia falta de algumas coisas, mas nunca falava.
Não ouviria mais reclamações do chefe. Sorriu ao pensar que pudesse ser afastada por motivos de saúde. Como poderia manter-se no emprego sem ouvir? Pensou em férias permanentes e remuneradas. Em um lugar quente e cheio de sol. Não precisaria nem levar o Ipod.
Olhou para o seu telefone. Já não tocava há um tempo. Nem se importou. Sabia que desta vez, mesmo que ele ligasse ela não ouviria. Melhor assim. Nem passaria pela angustiante espera do toque do telefone.
Imaginou a velhice. Sabia que um dia ficaria surda. Sempre soube. Velhinhos quase sempre acabam surdos e não teria que gastar dinheiro em um aparelho. Sua velhice sonora fora antecipada. Realmente estava se sentindo bastante idosa nos últimos dias.
Pensou na morte. Não ouviria o som do seu filho. Nem o primeiro choro nem, o balbuciar das primeiras palavras.
Num impulso, abriu os olhos. O despertador tocava.
Por Bell Gama
Abril/2009
2 comments 24/04/2009
Insone
Fechou o livro da Clarice e pensou.
“Você me dá insônia.” – Não, Clarice! Não você!
Quando está longe de mim, me dá insônia. Quando está perto, não consigo dormir.
Estou cansada. Quero um amor de dormir de conchinha. Mas você não. Quando dorme do meu lado, ocupa a cama inteira. Ás vezes sofre daquele síndrome que vi na televisão… das pernas inquietas. As suas teimam em sair da minha cama e ir atrás de outras.
Sofro. Ás vezes a insônia me inspira. Até a exaustão. Escrevo, arrumo as gavetas, começo um livro, pinto um quadro, faço planos. Isso! Preciso de um plano! Preciso de um plano agora. Mas vou ter que esperar amanhecer… tá todo mundo dormindo. Até a Clarice repousa no criado mudo.
Não agüento mais esperar. Minhas olheiras começam a dar sinal de vida. Justo eu que nem olheiras tinha. Mas é isso que você quer… quer que eu fique feia, bem feia. Pra você ir atrás de outra…. Vai de uma vez! E me deixa dormir!
Que raiva! Você não some! Não, não vou ouvir música nenhuma. A música vira trilha sonora dos meus pensamentos. Tudo vira um vídeo clipe. Putz… que vídeo clipe! Eu ganharia um prêmio com esse vídeo clipe, eu poderia pelo menos sonhar com esse vídeo clipe… Eu poderia viver esse vídeo clipe…
Não! Não tem vídeo clipe nenhum. Não tem música, não tem som. Teu show acabou. Foda-se, acabou! Agora é você quem não vai mais dormir! Vou te acordar!
Por Bell Gama
Março 2009
3 comments 30/03/2009
Lily Braun e o comparsa Biscate
“Vamos ao cinema, baby
Vamos nos mandar daqui
Vamos nos casar na igreja
Chega de barraco
Chega de piti ”
(Chico Buarque – Biscate)
Como na história de Lily Braun, o homem dos sonhos (mais um) apareceu. Dancing saiu de moda nos anos 80. Por ter nascido nessa mesma década ele não aprendeu a dançar. Falta-lhe o ritmo.
Nos conhecemos e reconhecemos em um só relance na festa de um amigo comum. Os zooms dos nossos olhos foram sincronizados. Depois de uns drinks, também perdemos a pose. Assim, bastou mais um zoom dos seus olhos de ressaca para eu ir atrás.
Tímida, ainda não sabia o que fazer. Em um só abraço, beijou-me o ouvido e disse: “Deixa de siricotico!” Me desmilingui toda em seus braços. Arrebatada no seu beijo, me senti no foco central de um filme de cinema europeu.
Atuei eu mesma. Fiz minha melhor performance. A cada encontro uma nova cena. Fomos ao cinema, fomos a Bahia, fomos ver o sol nascer, brincávamos até de casar na igreja. Ele atuou como o biscate do cinema mais barato. Algumas vezes mandou rosas, ás vezes um poeminha e muitas vezes não mandou nada. Nunca banquei o papel de esposa, mas cansei de bancar a inadimplência amorosa e ser trocada por um jogo qualquer como Flamengo e River Plate.
Dei piti. Disse-lhe de uma vez por todas que estava cansada de fazer tudo, bolo de fubá, pitu de dendê e ainda servir tudo pra ele na cama… e ele nada comer! Cansei dele ir atrás de outro rabo de saia… e nada de comer!
Perdi a pose. Ele me tirou do close. Troquei o filme pelo samba e fui me benzer.
“Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz”
(Chico Buarque – A história de Lily Braun)
Por Bell Gama
março 2009
1 comment 29/03/2009